Irã diz aceitar inspeção em base militar suspeita

Potências anunciam retomada de negociações, interrompidas há mais de um ano, após Teerã ter rejeitado vistoria em instalação

TEERÃ, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2012 | 03h01

Um dia depois da reunião entre o presidente americano, Barack Obama, e o premiê israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu - para debater uma possível ação de força pra frear o programa nuclear de Teerã -, o governo do Irã anunciou ontem que autorizará a inspeção internacional em uma base suspeita de abrigar atividades atômicas com fins militares.

Ao mesmo tempo, de acordo com os EUA e a União Europeia, as potências mundiais concordaram com uma nova rodada de conversações com o Irã sobre o programa.

A chefe da política externa da UE, Catherine Ashton, afirmou que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Alemanha coincidiram na intenção de retomar as conversações com Teerã - interrompidas desde janeiro de 2011, após o impasse sobre a inspeção na base militar de Parchin, a sudeste da capital iraniana.

Segundo os EUA e seus aliados, o Irã está tentando produzir armas nucleares. Teerã nega, insistindo que seu programa tem fins pacíficos.

Ashton disse em comunicado que a UE espera que o Irã "agora se envolva num processo sustentado de diálogo construtivo, que produza um progresso efetivo para pôr fim às persistentes preocupações da comunidade internacional quanto ao seu programa nuclear". Data e local das novas conversações não foram ainda determinados.

Em Washington, o porta-voz da Segurança Nacional da Casa Branca, Tommy Vietor, disse que o Irã tem de cumprir com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e parar de enriquecer urânio. "Ainda acreditamos que a diplomacia, aliada a uma forte pressão, pode propiciar a solução de longo prazo como queremos", afirmou ele, por meio de um comunicado.

O chanceler da Grã-Bretanha, William Hague, também declarou que "cabe ao Irã convencer a comunidade internacional que o seu programa é exclusivamente para fins pacíficos".

O ministro de Exterior da Alemanha, Guido Westervelle, defendeu uma solução diplomática. "Precisamos impedir que o Irã fique de posse de armas nucleares". A decisão deu-se com a resposta de Ashton a uma carta enviada em fevereiro pelo negociador iraniano, Said Jalili, na qual ele propôs novas conversações.

Obama tinha alertado que os EUA usarão força militar para proteger seus interesses, caso seja necessário, mas pediu tempo para que as sanções contra o Irã mostrassem resultados. Em declarações públicas durante sua visita a Washington, Netanyahu agradeceu o presidente Obama pelo seu apoio, mas não fez muito para diminuir as preocupações de que Israel possa lançar um ataque contra o Irã. Para Israel, o Irã é uma ameaça à sua existência em razão do seu programa nuclear e das referências feitas pelos iranianos à destruição do Estado judaico.

No ano passado a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) publicou um relatório dizendo haver evidências de atividade iraniana que teriam a ver com o desenvolvimento de armas. Na segunda-feira, o chefe da AIEA, Yukiya Amano, disse que sua organização tem "preocupações sérias" de que o Irã possa estar ocultando um trabalho secreto de produção de armas atômicas, citando o complexo de Parchin.

Ontem, o Irã respondeu em parte a esses temores, autorizando os inspetores da AIEA a visitar o complexo. Segundo o Irã, trata-se de uma base militar, não uma central nuclear.

De acordo com a agência oficial de notícias Isna a visita dependerá de um acordo entre as partes sobre as diretrizes a ser seguidas. "Como Parchin é uma base militar, o acesso ao local exigirá tempo e não pode ser visitado repetidas vezes", informou a agência citando o comunicado iraniano. Acrescentou que após as várias demandas da AIEA, "a autorização será dada para apenas mais uma entrada no local". A inspeção de Parchin era a principal exigência dos inspetores da AIEA que visitaram Teerã em janeiro e fevereiro. O Irã rejeitou as demandas na época, como também as tentativas da equipe para interrogar autoridades iranianas e obter outras informações ligadas às suspeitas de produção de armas atômicas.

O complexo de Parchin tem sido mencionado repetidamente no Ocidente como uma base suspeita para experimentos nucleares secretos - o que o Irã nega insistentemente. Os inspetores da AIEA visitaram o local em 2005, mas somente uma das quatro áreas do complexo, não tendo encontrado nenhuma atividade fora do normal.

No ano passado, relatório da AIEA disse haver indicações de que Teerã estava realizando em Parchin testes com explosivos potentes para disparar uma carga nuclear. "Temos informações confiáveis de que o Irã está envolvido em atividades importantes para a produção de armas nucleares", disse Amano na segunda-feira, descrevendo suas fontes como "velhas e novas informações". / AP, AFP e REUTERS

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