Presidência do Irã / EFE
Presidência do Irã / EFE

Irã começou a enriquecer urânio acima de 4,5%, nível proibido pelo acordo de 2015

Em resposta, UE pede que Teerã pare com atividades que sejam ‘incompatíveis com os compromissos contraídos’ no pacto nuclear iraniano; Rússia culpa EUA pelas tensões atuais; Washington diz que não busca guerra, mas ressalta que não recuará

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 08h46
Atualizado 08 de julho de 2019 | 14h30

TEERÃ - O Irã anunciou nesta segunda-feira, 8, que começou a enriquecer urânio acima de 4,5%, um nível proibido pelo acordo internacional de 2015 sobre o seu programa nuclear, e advertiu a Europa a não agravar a situação. A informação foi confirmada horas depois pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão de fiscalização nuclear da ONU.

"Esta manhã, o grau de pureza do urânio (enriquecido) produzido (pelo Irã) atingiu 4,5%", indicou a agência de notícias Isna, citando Behruz Kamalvandi, porta-voz da Organização Iraniana de Energia Atômica (OIEA). "Este grau de pureza é perfeitamente suficiente para as necessidades do país em termos de combustível para a central nuclear", acrescentou Kamalvandi, segundo a Isna.

"Vinte por cento não são necessários agora, mas se quisermos o produziremos. Ao colocar de lado o enriquecimento de 3,67%, não temos obstáculo ou problema com esta ação”, disse Kamalvandi, segundo a agência Irib, observando que as opções de enriquecimento em níveis mais altos foram debatidas com o Supremo Conselho de Segurança Nacional.

"Existe a opção de 20% e existem opções até mais altas do que essa, mas cada uma no seu devido lugar. Hoje, se as necessidades de nosso país são uma coisa, não buscaremos outra só para assustar o outro lado um pouco mais", ressaltou ele. "Mas eles sabem que é uma tendência crescente." Aumentar o número de centrífugas é uma opção como terceiro passo do Irã para diminuir seus compromissos com o acordo nuclear, afirmou Kamalvandi, enfatizando o reacionamento de centrífugas IR-2 e IR-2 M.

O governo iraniano havia anunciado no domingo que começaria a enriquecer urânio a um nível superior a 3,67%, definido no acordo internacional de 2015 sobre o programa nuclear iraniano.

O nível de 5% continua muito distante dos 90% necessários para a fabricação de uma bomba atômica. Além disso, Teerã alega que o aumento do nível de enriquecimento de urânio serve apenas para propósitos pacíficos.

Em reação ao anúncio, a União Europeia (UE) pediu que o Irã pare o enriquecimento acima dos níveis definidos no acordo de 2015. "Instamos encarecidamente o Irã a parar e reverter todas as atividades que sejam incompatíveis com os compromissos contraídos" no âmbito do acordo nuclear, afirmou Maja Kocijancic, porta-voz da diplomacia europeia.

Dizendo-se "preocupada", a Rússia pediu "diálogo" com a República Islâmica. "A Rússia espera prosseguir com o diálogo e os esforços diplomáticos", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusando os Estados Unidos de serem responsáveis pelas tensões atuais.

A China também denunciou as atitudes americanas como causas das tensões. "A pressão máxima dos EUA sobre o Irã é a fonte da crise nuclear iraniana", afirmou Geng Shuang, um porta-voz do Ministério chinês das Relações Exteriores.

Advertência de Teerã

Ainda nesta segunda, o Irã advertiu a Europa a não contribuir para uma escalada de tensão como resposta à decisão do país de enriquecer urânio a um nível acima do permitido pelo acordo de 2015.

Se França, Reino Unido e Alemanha, signatários do acordo nuclear iraniano, se "comportarem de maneira estranha e inesperada, então pularíamos todas as etapas seguintes (do plano de redução de compromissos) e executaríamos a última", disse Abbas Musavi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Questionado sobre a atitude que o país adotaria caso os europeus apresentem uma reação "enérgica" aos anúncios mais recentes do Irã, Musavi não explicou o que seria a última "etapa".

França, Reino Unido e Alemanha são as três partes europeias do acordo internacional assinado em Viena em 2015. O pacto está sob risco desde que o governo americano decidiu abandoná-lo de forma unilateral em maio de 2018 e voltou a estabelecer sanções econômicas contra a República Islâmica.

No dia 8 de maio, exatamente um ano após o anúncio de retirada de Washington, Teerã informou que começaria a se desvincular de vários compromissos do acordo de Viena, com a ideia de pressionar os outros signatários a ajudar o país a evitar as sanções americanas.

EUA não recuarão

O vice-presidente americano, Mike Pence, disse nesta segunda-feira que os EUA estão dispostos a dialogar com o Irã sobre seu programa nuclear e não buscam guerra, mas acrescentou que o governo de Donald Trump está preparado para proteger interesses e vidas americanos.

"O Irã não deve confundir a contenção americana com a falta de resolução americana", afirmou Pence em declarações preparadas para uma conferência do grupo Cristãos Unidos por Israel. "Os EUA não buscam uma guerra com o Irã. Estamos dispostos a conversar. Estamos dispostos a ouvir. Mas os EUA não recuarão." / AFP, NYT e Reuters

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