Irã diz que não permitirá inspeções da ONU aprovadas com apoio do Brasil

O regime de Mahmoud Ahmadinejad anunciou ontem que não aceitará a entrada de um relator da ONU para investigar a situação dos direitos humanos no Irã - aprovada na véspera numa votação que contou com o apoio brasileiro - e alegou que a medida é uma "campanha" dos EUA.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

A posição brasileira na votação do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas foi, por enquanto, a decisão de política externa do governo de Dilma Rousseff que mais marcou uma diferença em relação à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Brasil chegou a pedir ao Irã, nos bastidores, que colaborasse com a ONU e aceitasse a visita do relator.

O Estado obteve informações confidenciais da ONU de que a escolha do relator deve ocorrer nas próximas semanas e a entidade escolherá entre a paquistanesa Asma Jahangir e o indiano Miloon Khotari - ambos destacados nomes na defesa dos direitos humanos no mundo.

Mas, numa declaração feita em Teerã e divulgada em Genebra, o porta-voz da chancelaria iraniana, Ramin Mehmanparast, acusou a iniciativa de ser "politicamente motivada" e ter como meta "distrair" a comunidade internacional em relação aos abusos cometidos pelos EUA.

Ao Estado, a diplomacia iraniana havia acusado o Brasil de ser um dos países que se "dobraram" aos interesses de Washington. Teerã chegou a insinuar que o Brasil estava adotando uma posição de "país pequeno".

"O objetivo dessa resolução é aumentar a pressão sobre o Irã e distrair a atenção dos abusos no Ocidente, especialmente nos EUA", acusou o porta-voz.

O Irã alega que abusos cometidos pelas forças americanas no Iraque e no Afeganistão e a existência de um centro de detenção na Baía de Guantánamo seriam provas de que Washington não está na posição de criticar outros países sobre direitos humanos. "As políticas dos EUA, tanto em atitude como em palavras, sempre foram paradoxais e baseadas em duplos padrões, e a recente resolução exemplifica claramente esse comportamento", afirmou.

Mesmo sem poder entrar no Irã, o relator da ONU fará sua investigação, com base em informações de dissidentes, exilados, ONGs e parentes de vítimas.

Do lado americano, a aprovação da resolução foi tida como uma vitória diplomática pelo presidente Barack Obama. "Essa resolução é um marco que reafirma o consenso e a preocupação global e sobre a situação dos direitos humanos no Irã", afirmou Tom Donilon, conselheiro de Segurança Nacional de Obama.

Na Grã-Bretanha, o secretário de Assuntos Exteriores, William Hague, apontou que a investigação da ONU será um "incentivo aos iranianos que de forma corajosa continuam a defender seus direitos".

Segundo ele, o Irã tem sistematicamente silenciado a oposição desde as eleições de 2009.

Essa não é a primeira vez que o Irã se recusa a aceitar um relator da ONU. Desde 2005, nenhum emissário de direitos humanos da organização foi autorizado a visitar o país. Segundo um relatório preparado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a repressão no Irã ganhou novas dimensões nos últimos meses.

Apenas neste ano, 92 pessoas foram executadas pelo Estado. Em 2009, o número total foi de 388, o que colocou o Irã como o segundo maior responsável por execuções no planeta. A China foi a primeira. Teerã, porém, insiste que a pena de morte é fundamental para manter a ordem.

"Espero que o Irã entenda a preocupação da comunidade internacional e espero que coopere com o emissário", afirmou o presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Sihasak Phuangketkeow.

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