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Acordo bilionário com Irã aprofunda presença da China no Oriente Médio

Países celebraram parceria econômica e de segurança em Teerã neste sábado, 27; pacto frustra esforços dos EUA de isolar iranianos

Farnaz Fassihi e Steven Lee Myers, The New York Times

27 de março de 2021 | 15h00

PEQUIM - A China concordou em investir US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões) no Irã ao longo de 25 anos em troca de um suprimento constante de petróleo para abastecer sua economia em um amplo acordo econômico e de segurança assinado no sábado, 27. 

O acordo aprofunda a influência da China no Oriente Médio e mina esforços americanos para manter o Irã isolado. Ainda não ficou claro quanto do acordo pode ser implementado enquanto a disputa dos EUA com o Irã sobre seu programa nuclear permanece sem solução.

O presidente Joe Biden ofereceu retomar as negociações com o Irã sobre o acordo nuclear de 2015 que seu antecessor, Donald Trump, revogou três anos depois de ter sido assinado. Autoridades americanas dizem que ambos os países podem tomar medidas para fazer com que o Irã cumpra os termos do acordo enquanto os EUA suspendem gradualmente as sanções.

O Irã se recusou a fazê-lo, e a China o apoiou, exigindo que os EUA ajam primeiro para reativar o acordo que romperam, suspendendo as sanções unilaterais que sufocaram a economia iraniana. A China foi uma das cinco potências mundiais que, junto com os EUA, assinaram o acordo nuclear de 2015 com o Irã.

Acordo bilionário

Os chanceleres dos dois países, Javad Zarif e Wang Yi, assinaram o acordo durante cerimônia no Ministério das Relações Exteriores em Teerã no sábado. O acordo coroou uma visita de dois dias de Wang que refletiu a crescente ambição da China de desempenhar um papel mais importante em uma região que tem sido estratégica para os Estados Unidos por décadas.

“Para a região emergir do caos e desfrutar de estabilidade, ela deve se libertar das sombras da rivalidade geopolítica das grandes potências, permanecer imune à pressão e interferência externa e explorar caminhos de desenvolvimento adequados às suas realidades regionais”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China , Hua Chunying, na sexta. 

O Irã não divulgou os detalhes do acordo antes da assinatura. Mas especialistas disseram que ele não passou por alterações em relação a um rascunho de 18 páginas obtido no ano passado pelo The New York Times.

O esboço detalhou US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões) de investimentos chineses a serem feitos em dezenas de campos, incluindo bancos, telecomunicações, portos, ferrovias, saúde e tecnologia da informação, nos próximos 25 anos. Em troca, a China receberia um fornecimento regular com grandes descontos de petróleo iraniano.

O documento também pedia o aprofundamento da cooperação militar, incluindo treinamento e exercícios conjuntos, pesquisa conjunta e desenvolvimento de armas e compartilhamento de inteligência.

'Diplomacia bem-sucedida'

Hesamoddin Ashena, um dos principais conselheiros do presidente Hassan Rouhani, chamou o acordo de "um exemplo de uma diplomacia bem-sucedida" no Twitter, dizendo que era um sinal do poder do Irã "participar de coalizões e não permanecer isolado".

Também disse que é um "decreto importante para a cooperação de longo prazo após longas negociações e trabalho conjunto." Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, chamou o documento de um "mapa completo" das relações para o próximo quarto de século.

Avanço chinês

Wang já visitou o arquirrival do Irã, a Arábia Saudita, bem como a Turquia, e deve ir ainda aos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã nos próximos dias. Ele disse que a região está em uma encruzilhada e ofereceu a ajuda da China para resolver disputas persistentes, incluindo sobre o programa nuclear do Irã.

A China também está pronta para receber conversas diretas entre israelenses e palestinos, sugerindo que o domínio americano na região prejudicou a paz e o desenvolvimento. 

No Irã, as opiniões sobre a expansão da influência da China têm sido mistas. Depois que o presidente Xi Jinping propôs pela primeira vez o acordo estratégico durante sua visita em 2016, as negociações para concluí-lo foram lentas, no início. O Irã havia acabado de fechar um acordo com os Estados Unidos e outras nações para aliviar as sanções econômicas em troca de severas restrições às suas atividades de pesquisa nuclear, e as empresas europeias começaram a migrar para o Irã com investimentos e ofertas de parcerias conjuntas para desenvolver campos de gás e petróleo.

Essas oportunidades evaporaram depois que Trump retirou os Estados Unidos do acordo e impôs novas sanções que os europeus temiam que pudessem envolvê-los, forçando o Irã a olhar para o leste. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, ordenou o renascimento das negociações com a China, nomeando um político conservador de confiança e ex-presidente do Parlamento, Ali Larijani, como encarregado especial.

Críticos reclamaram que faltou transparência na negociação e consideraram o acordo uma venda dos recursos do Irã, comparando-o a acordos unilaterais que a China fez com países como o Sri Lanka. Apoiadores disseram que o Irã deve ser pragmático e reconhecer a crescente proeminência econômica da China.

“Por muito tempo em nossas alianças estratégicas, colocamos todos os nossos ovos na cesta do Ocidente e isso não deu resultados”, disse Ali Shariati, analista econômico. “Agora, se mudarmos a política e olharmos para o leste, não será tão ruim.”

Resta saber quantos dos ambiciosos projetos detalhados no acordo irão se materializar. Se o acordo nuclear fracassar totalmente, as empresas chinesas também poderão enfrentar sanções secundárias de Washington, uma questão que enfureceu a China no passado.

O processo americano contra a gigante chinesa de telecomunicações Huawei inclui acusações de que a empresa negociava furtivamente com o Irã, violando essas sanções. Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores em Pequim, enfatizou que os dois países precisam tomar medidas para resolver a disputa nuclear.

"A tarefa urgente é que os EUA tomem medidas substantivas para suspender suas sanções unilaterais ao Irã e jurisdições sobre terceiros. E que o Irã retome o cumprimento recíproco de seus compromissos nucleares”.

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