Irã e EUA sofrem pressão de radicais

Ultraconservadores, dos dois lados, atacam eventuais concessões para resolver impasse nuclear iraniano

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h03

As negociações entre EUA e Irã estão cheias de dificuldades técnicas e diplomáticas. Mas, na última semana, a reaproximação entre os presidente Barack Obama e Hassan Rohani revelou mais um obstáculo: a resistência de conservadores em ambos os lados em aceitar que os governos façam qualquer tipo de concessão ou uma revisão das relações bilaterais.

Nesta semana, as potências internacionais e o Irã se reuniram em Genebra e, pela primeira vez, fizeram algum tipo de progresso para acabar com o impasse sobre o programa nuclear iraniano. Mas, antes mesmo de o Irã apresentar seu projeto para dar garantias de que não busca uma bomba atômica, Teerã fez um apelo: sigilo total sobre o que estava sendo oferecido.

O motivo era o temor de que, uma vez divulgado, o projeto passasse a ser bombardeado por ultraconservadores dentro do Irã, que vêm atacando o diálogo proposto pelo governo.

Momentos antes de embarcar para a reunião, o chanceler do Irã, Mohamed Javad Zarif, reforçou esse temor. "Peço que apoiem nossa delegação e evitem chegar a conclusões apressadas sobre as negociações", escreveu Zarif para seus 500 mil seguidores no Facebook.

Nos últimos quatro meses, decisões tomadas por Rohani foram recebidas com ataques por parte de setores da Guarda Revolucionária, religiosos e pela imprensa conservadora. Em deles, Zarif teria dito que o telefonema entre Obama e Rohani havia sido um "erro". O chanceler negou e disse que ocaso afetou sua saúde. "Depois de ver a manchete, comecei a sentir dores nos quadris e nas costas. Não consegui sentar ou andar."

Grupos ainda atacam o que chamam de "política de concessão" de Rohani, enquanto um deles já anunciou que vai "mobilizar as massas contra a "venda" do Irã. Há uma semana, na mesquita central de Teerã, o clérigo Ahmad Khatami pediu que os fiéis gritassem "Morte à América", alegando que isso "fortalecia os diplomatas iranianos".

Não é apenas a política nuclear que irrita os conservadores. Rohani estaria relaxando a prisão domiciliar dos ex-candidatos presidenciais Mir Hussein Mousavi e Mehdi Karoubi. Ambos lideraram o Movimento Verde, de contestação à Mahmoud Ahmadinejad. Na casa de Mousavi, por exemplo, suas janelas e portas haviam sido vedadas. Mas, desde a posse de Rohani, ele recebe visitas.

Mas Rohani não é o único que sofre pressão dos conservadores. Obama vem sendo atacado por congressistas que cobram ações mais duras contra o Irã. "Estamos lidando com um governo perigoso e mentiroso", disse Marco Rubio, senador republicano. "Não é o momento de suspender sanções, mas de aumentá-las."

A pressão sobre Obama vem também do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, que alertou que ceder nas sanções seria "um erro histórico". Assim que a delegação americana deixou Genebra, a vice-secretária de Estado, Wendy Sherman, prometeu explicar aos congressistas o que o Irã ofereceu.

Uma das opções é substituir o fim das sanções pelo descongelamento de ativos iranianos nos EUA, algo que driblaria a autorização do Congresso. Teerã, no entanto, indicou que não aceitará negociar se não houver garantias de que possa, no futuro, usar a energia nuclear para fins pacíficos.

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