AFP PHOTO / POOL / JOE KLAMAR
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Irã e potências fecham acordo nuclear e colocam fim a mais de uma década de disputas

A decisão abre um novo capítulo nas relações entre americanos e iranianos; sanções comerciais começarão a ser retiradas

Jamil Chade, Correspodente / Genebra, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2015 | 05h27

(Atualizada às 9h30) GENEBRA - O Irã e as potências mundiais do P5+1 (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia, mais a Alemanha) fecharam nesta terça-feira, 14, um acordo nuclear que coloca fim a mais de uma década de disputas e ameaças em relação à Teerã e abre um novo capítulo nas relações entre americanos e iranianos, marcada por quatro décadas de tensão. 

O acordo foi anunciado formalmente em Viena, depois de negociadores passarem duas semanas discutindo de forma detalhada como seria o controle das usinas e dos programas nucleares em Teerã. Em troca, as sanções comerciais que estavam asfixiando a economia da  República Islâmica começarão a ser retiradas.

Em um pronunciamento, o presidente americano Barack Obama indicou que, com o acordo, "o mundo está mais seguro". "Paramos a proliferação nuclear no Oriente Médio", disse Obama, no primeiro discurso transmitido ao vivo ao Irã. "Dois terços das centrífugas serão retiradas de funcionamento", explicou.

"O acordo impede o Irã de ter a bomba nuclear e mostra que a diplomacia americana pode trazer uma mudança real", afirmou Obama. "Todos os caminhos para uma arma estão cortados."

O presidente do Irã, Hassan Rohani, comemorou o acordo. "Uma nova era começou", disse, apesar de dar outro tom ao entendimento. "Fomos reconhecidos com uma potência nuclear", insistiu, numa referência ao fato de que o país poderá desenvolver a tecnologia para fins pacíficos. 

Acima de tudo, porém, o acordo se refere à nova inserção do Irã na região e no mundo. Diante da ameaça do extremismo e dos esforços de grupos radicais de redesenhar o mapa da região, o acordo também sela um entendimento entre Washington e Teerã no que se refere ao papel do país persa na diplomacia regional. 

Federica Mogherini, chefe da diplomacia europeia, deixou claro que o acordo não se refere apenas ao capítulo nuclear. "Um novo capítulo nas relações internacionais se abre e mostra que a cooperação pode superar tensões de décadas", disse. 

O chanceler iraniano, Mohamed Javad Zarif, adotou o mesmo tom. "Esse é um acordo que abre novos horizontes. É um momento histórico e de esperança ao mundo." 

Já o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, criticou o acordo, alertando que o anúncio é um "erro histórico". Hans Blix, ex-chefe de inspeções da ONU, deixou claro que o mundo "não tinha outra opção". "A alternativa seria bombardear o Irã, o que seria desastroso." 

Pelo acordo, o Irã preserva sua capacidade de produzir e usar energia nuclear, sempre de forma pacífica e controlada pela AIEA, num vasto programa de monitoramento. As inspeções seriam amplas, mas não automáticas. A imprensa estatal iraniana ainda insiste que o acordo "reconhece o direito do Irã de enriquecer urânio", numa tentativa de convencer a ala mais radical dentro do país de que o entendimento não significou uma perda de soberania.

O embargo ao Irã para a compra de armas, porém, ficará em vigor por pelo menos cinco anos. As sanções contra o setor de bancos, transporte e petróleo serãom retiradas, mas qualquer violação ao acordo significaria a volta de medidas punitivas em 65 dias.  

A negociação esteve ameaçada em diversos momentos e perdeu prazos estabelecidos pelos próprios diplomatas. O último deles foi o do dia 30. Todos entenderam, porém, que não seria um calendário que iria frear um acordo considerado como "histórico".

Na prática, o acordo impede que o Irã tenha acesso à tecnologia para construir uma bomba por pelo menos dez anos, algo que Washington não conseguiu nem para a Coreia do Norte e nem para o Paquistão. 

Já o governo iraniano comemora o fim progressivo das sanções, que haviam isolado de forma completa a economia local. O acordo é ainda uma vitória de Barack Obama, o presidente americano que deu início à reaproximação com Cuba e, agora, também deixa o legado de um acordo com o Irã. 

Em 2009, Obama havia colocado o diálogo com o regime dos Aiatolás como uma prioridade, mas apenas durante seu segundo mandato na Casa Branca e diante de um cenário de ameaça extremista houve espaço suficiente para fechar um acordo. 

O entendimento coloca também um fim na definição que o ex-presidente George W. Bush estabeleceu: o "eixo do mal", composto entre outros pelo Irã. A partir de hoje, Teerã deixa de ser um estado pária. 

Para ambos os lados, porém, o acordo pressupõe desafios. O Congresso americano terá 60 dias para aprovar o acordo fechado pelos diplomatas e o governo de Israel já atua nos bastidores para ganhar apoio entre os Republicanos e dificultar. Nesta terça-feira, Obama já indicou que vetará qualquer negativa do Congresso de impedir o acordo.  

Do lado iraniano, os diplomatas terão de convencer a ala mais dura do regime de que o congelamento de suas capacidades tecnológicas serão compensadas por ganhos reais para o país, principalmente na economia.

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