Alain Jocard/AFP
Alain Jocard/AFP

Irã enfrenta crise política mais grave em 40 anos

Pelo menos 208 pessoas morreram em 15 dias de protestos reprimidos violentamente

Farnaz Fassihi e Rick Gladstone / NYT, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 22h44

TEERÃ - Irã enfrenta sua mais grave agitação política desde a Revolução Islâmica, há 40 anos, com pelo menos 208 mortos, segundo a Anistia Internacional, e possivelmente outras centenas à medida que os protestos que começaram em 15 de outubro são sufocados pelo governo com uma força desenfreada.

O Irã ainda tem de publicar números a nível nacional sobre os protestos, mas rejeitou nesta segunda-feira, 2, os divulgados pelo organismo internacional.

A agitação começou há duas semanas com o aumento abrupto de pelo menos 50% dos preços da gasolina. Em 72 horas, manifestantes indignados ocuparam as ruas de cidades grandes e pequenas exigindo o fim do governo e a deposição de seus líderes.

Em muitos locais as forças de segurança reagiram disparando contra os manifestantes, na maior parte desempregados ou jovens de baixa renda entre 19 e 26 anos, segundo testemunhas e vídeos.

Somente na cidade de Mahsahr, a sudoeste do país, segundo pessoal médico e testemunhas, membros da Guarda Revolucionária cercaram, atiraram e mataram entre 40 a 100 manifestantes – na maior parte jovens desarmados – num pântano onde eles se haviam refugiado.

“O uso recente de força letal contra pessoas por todo o país é algo sem precedentes, mesmo no caso da República Islâmica e seu histórico de violência”, afirmou Omid Memarian, vice-diretor do Center for Human Rights no Irã, grupo que tem sede em Nova York.

Segundo organizações de direitos humanos, grupos de oposição e jornalistas, entre 208 e 450 pessoas  – possivelmente mais – foram mortas na onda de violência  depois que o aumento nos preços da gasolina foi anunciado, em 15 de novembro, com pelo menos 2 mil feridos e 7 mil detidos.

A última e forte onda de protestos no Irã – em 2009 depois de uma eleição contestada – também foi reprimida violentamente. Mas  deixou 72  mortos em um período mais longo, de cerca de 10 meses.

Somente agora, quase duas semanas após o início dos protestos – e amplamente ofuscados por um blecaute da internet no país que foi suspenso recentemente – detalhes corroborando a dimensão das mortes e da destruição começam aos poucos a surgir.

Esses últimos protestos não só revelaram o nível alarmante de frustração da sociedade com os líderes iranianos, mas também mostram os desafios econômicos e políticos enfrentados por eles desde as penosas sanções do governo Trump contra o Irã ao crescente ressentimento dos países vizinhos num Oriente Médio cada vez mais instável.

O aumento do preço da gasolina, anunciado quando muitos iranianos já dormiam, foi decidido para cobrir um enorme déficit orçamentário. As sanções americanas, especialmente as severas restrições às exportações de petróleo iraniano, são uma razão desse déficit. 

Os EUA impuseram as sanções para pressionar o Irã a renegociar o acordo nuclear assinado em 2015 do qual Washington se retirou considerando-o frágil demais.

Grande parte dessa rebelião nacional se concentrou em bairros e cidades com grande população de famílias de baixa renda e de classe operária, sugerindo que a revolta nasceu numa base historicamente leal à hierarquia pós-revolucionária do Irã.

Muitos iranianos, perplexos e amargurados, direcionaram sua hostilidade ao líder supremo,  aiatolá Ali Khamenei, que ordenou a repressão e a justificou como uma resposta do governo a um complô planejado por inimigos do Irã dentro e fora do país.

As autoridades não deram detalhes sobre vítimas e prisões e denunciaram como especulação os dados não oficiais sobre o número de mortes. Mas o ministro do Interior Abdolreza Rahmani Fazli fez referência a protestos generalizados em todo o país.

Na mídia estatal, ele afirmou que os protestos irromperam em 29 das 31 províncias e 50 bases militares que foram atacadas – o que, se for verdade, sugere que não havia uma coordenação como em manifestações anteriores. 

Os danos à propriedade também incluíram 731 bancos, 140 espaços públicos, 9 centros religiosos, 70 postos de gasolina, 307 veículos, 183 carros da polícia, 1.076 motocicletas, 34 ambulâncias, declarou o ministro do Interior. 

Segundo a mídia oficial, diversos membros das forças de segurança foram mortos ou feridos durante os confrontos.

Em Mahshahr foram registrados os piores protestos

Os piores atos de violência documentados até agora ocorreram na cidade de Mahshahr e seus subúrbios, com uma população de 120 mil pessoas na Província do Khuzestan, a sudoeste do Irã – uma região de maioria árabe que tem uma longa história de protestos e de oposição ao governo central. Mahshahr está próxima do maior complexo petroquímico industrial do mundo e serve como passagem para o importante porto de Bandar Imam.

O jornal New York Times entrevistou seis moradores da cidade, incluindo um líder das manifestações que presenciou a violência, um jornalista da cidade que trabalha para a mídia iraniana e investigava a violência, mas foi proibido de publicar sua reportagem; e uma enfermeira de um hospital onde feridos foram medicados.

Cada um deles fez relatos similares de como a Guarda Revolucionária enviou uma enorme força para Mahshahr no dia 18 para sufocar os protestos.

Durante três dias, segundo esses moradores, os manifestantes conseguiram manter o controle de Mahshahr e  subúrbios, bloqueando as principais estradas para a cidade e para o complexo petroquímico. 

O ministro do Interior confirmou isso numa entrevista pela TV na semana passada, mas o governo iraniano não respondeu a questões específicas nos últimos dias sobre os assassinatos em massa na cidade.Forças de segurança locais e a polícia de choque tentaram dispersar a multidão e abrir as estradas, mas não conseguiram, segundo os moradores. 

Mortos empilhados em carroceria de caminhão 

Vários confrontos ocorreram entre manifestantes e as forças de segurança entre a noite de sábado e a manhã de hoje, antes de a Guarda Revolucionária ser enviada para o local.

Quando os membros da Guarda chegaram próximo da entrada de um subúrbio chamado Shahrak Chamran, onde vivem membros da minoria árabe do Irã, eles imediatamente atiraram sem aviso contra dezenas de homens que bloqueavam o cruzamento, matando vários deles, disseram moradores entrevistados por telefone.

Segundo os moradores, outros manifestantes tentaram se refugiar num pântano vizinho e um deles, aparentemente armado com uma AK-47, reagiu. A Guarda imediatamente cercou os homens e respondeu, atirando contra eles com metralhadoras e matando cerca de 100 pessoas. Os mortos foram empilhados na carroceria de um caminhão e levados embora. 

Parentes das pessoas feridas os transportaram para o Memko Hospital. Um dos moradores, um jovem de 24 anos recém-formado em química e desempregado, que ajudou a organizar o bloqueio das estradas, disse que ficou a menos de um quilômetro e meio do massacre e  seu melhor amigo, também de 24 anos, e um primo de 32 anos, estavam entre os mortos. 

Ambos foram alvejados no peito e seus corpos foram devolvidos às famílias cinco dias mais tarde, depois de elas assinarem documentos prometendo não realizar funerais ou enterros e não conceder entrevistas à mídia.

O jovem disse também ter sido alvejado nas costelas no dia 19, um dia depois do massacre, quando a Guarda invadiu com tanques o seu bairro, Shahrak Taleghani, um dos mais pobres de Mahshahr. 

Então irrompeu uma batalha que durou horas entre a Guarda e os moradores árabes, que tradicionalmente têm armas para caçadas. 

A mídia estatal iraniana e testemunhas reportaram que um comandante da Guarda foi morto no confronto. Vídeo no Twitter indica que tanques estão mobilizados na área.

Uma enfermeira de 32 anos afirmou, por telefone, que atendeu pessoas feridas no hospital e muitas tinham ferimentos profundos de balas na cabeça e no peito.

Ela descreveu as cenas caóticas no hospital com famílias às pressas trazendo os feridos, incluindo um jovem de 21 anos que deveria se casar em breve, mas não foi salvo. 

“Devolvam-me o meu filho. Seu casamento será em duas semanas”, dizia sua mãe em prantos, segundo a enfermeira. Ela disse que forças de segurança estacionadas no hospital prenderam alguns dos feridos depois que suas condições de saúde  melhoraram. 

Em 25 de novembro, uma semana depois, o representante da cidade no Parlamento, Mohamad Golmordai, expressou sua indignação num momento  de críticas mordazes ao governo que foi transmitido pela TV estatal do país e capturado em fotos e vídeos que foram baixados na internet.

“O que vocês fizeram que o indigno Xá não fez?”, gritou Golmorodai no Parlamento, quando uma discussão irrompeu entre ele e outros parlamentares, incluindo um que o agarrou pela garganta.

Um jornalista local em Mahshahr afirmou que o número total de mortos em três dias de protestos na região havia chegado a 130, incluindo os mortos no pântano.

Em outras cidades como Shiraz e Shahriar, dezenas de homens foram mortos pelas forças de segurança que atiraram contra indivíduos desarmados, segundo grupos de direitos humanos e vídeos postados por testemunhas.

“Este regime empurrou as pessoas para a violência”, disse Yousef Alsarkhi,  de 29 anos, ativista político da Província de Khuzestan que emigrou para a Holanda há quatro anos. “Quanto mais eles reprimem, mais agressivas e iradas as pessoas ficam”.

Para analistas políticos, os protestos constituíram um duro golpe para o presidente Hassan Rohani, considerado um moderado no espectro político do Irã, assegurando que os radicais vençam as próximas eleições parlamentares e a presidência daqui a dois anos.

A dura resposta aos protestos também indica um distanciamento cada vez maior dos líderes iranianos de uma grande parcela da população do país, hoje de 83 milhões./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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