Irã enviou dinheiro à Argentina, diz suspeito de mediar acordo

Segundo Jorge Khalil, ele recebeu fundos de Mohsen Rabbani, acusado de ser um dos mentores do atentado à Amia, em 1994

BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

17 Março 2015 | 02h01

Um dos suspeitos de participar da negociação comercial apontada por Alberto Nisman como verdadeiro objetivo do acordo entre Irã e Argentina, em troca de proteção para iranianos acusados de cometer o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), admitiu que dinheiro chegou a território argentino com a mediação de um dos principais acusados pelo atentado.

Jorge Yusuff Khalil, mencionado como um agente iraniano na denúncia que o promotor fez contra a presidente Cristina Kirchner e parte da cúpula do governo, deu entrevista ao canal América na madrugada de ontem. Khalil alegou que queria que "empresas médias começassem a ter negócios diretos com empresários argentinos."

Questionado se isso era uma "diplomacia paralela", acusação feita por Nisman para envolver o chanceler Héctor Timerman no caso, Khalil respondeu que era uma "diplomacia dos povos. "Não posso falar em nome do Irã, mas posso ter empresários iranianos amigos e trazê-los para trabalhar com empresários argentinos."

Khalil revelou também como recebia dinheiro de Mohsen Rabbani, que ele apontou como uma "referência religiosa" na mesquita At-Tauid, da qual é o secretário-geral em Buenos Aires. Rabbani é acusado pela Justiça argentina de ser um dos mentores do atentado contra a Amia. Segundo Khalil, Rabbani foi administrador da entrada de dinheiro iraniano por meio de universidades do Irã. Khalil foi um dos principais alvos das escutas que são a base da denúncia de Nisman.

"Não tive intercâmbio de dinheiro com Rabbani. Mas podemos discutir preço e cotação, porque tínhamos trabalhos culturais conjuntos. As mesquitas são sustentadas com uma contribuição que é uma doação islâmica. Muitas vezes as universidades de Teerã contribuíram com nós, quando dizíamos 'necessitamos tanto para tal trabalho religioso'."

Ele disse ainda que os acusados iranianos rejeitam viajar para a Argentina "porque não confiam na Justiça local". "Não estou dizendo que são inocentes. Estou convencido de que o Irã não faz essas coisas. Se são culpados, que paguem por isso", afirmou. Ele disse não ter sido um intermediário para o pacto entre os dois países, mas admitiu que tinha interesse que o acordo fosse fechado.

O acordo nunca foi aprovado pelo Congresso iraniano e a Justiça argentina o considerou inconstitucional. O argumento de que o pacto nunca chegou a ser aplicado na prática foi o usado pelo juiz Daniel Rafecas para rejeitar a denúncia feita por Nisman quatro dias antes de morrer e levada adiante pelo promotor Gerardo Pollicita. Caberá a um tribunal superior decidir se a investigação por acobertamento seguirá adiante, mas pelo menos o chanceler Timerman terá de apresentar defesa, oral ou por escrito, na quinta-feira. / R.C.

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