Irã exige uma ação global

Irã exige uma ação global

Ainda não chegamos à crise envolvendo o programa nuclear iraniano, mas integrantes do Conselho de Segurança, incluindo Brasil e Turquia, devem mostrar determinação

David Miliband, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

O programa nuclear do Irã e a reação mundial suscitam as mais profundas questões sobre a força da legislação internacional, o propósito da ONU e os direitos de Estados que se sentem ameaçados. Mais prosaicamente, as ambições nucleares do Irã são um ponto crítico, capaz de produzir uma guerra no Oriente Médio.

Eu me preocupo porque em muitos países os perigos são considerados teóricos e o tempo dos acontecimentos não é tratado com urgência. Ainda não chegamos à crise, mas todos no Conselho de Segurança da ONU precisam reconhecer o que está em jogo se quisermos evitá-la.

No trato com o Irã, somos prisioneiros de nossa história. Durante décadas, houve passos em falso do Ocidente e erros do Irã. Isso criou algo pior que um clima de desconfiança - o impasse típico de um diálogo de surdos. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, diz que possuir armas nucleares é "não islâmico", mas os atos iranianos não sustentam essa afirmação.

O presidente Barack Obama estende a mão para a República Islâmica e sua oferta é desconsiderada, seja como um truque de relações públicas, seja como parte de uma trama ardilosa - e não é vista pelo que foi, uma oferta inovadora.

Nos últimos seis meses, os entendimentos com o Irã se tornaram muito mais complexos. Isso porque o próprio país está passando por um exame minucioso de sua real situação - liderado por seu próprio povo nas ruas. Porque é difícil fazer com que os líderes iranianos abandonem a duplicidade e a opacidade sobre suas intenções nucleares, e se empenhem numa reaproximação mais ampla com o mundo, quando eles estão divididos entre si. E também porque há muitos "Irãs".

Um Irã é visto num povo altamente educado e empreendedor, com celebrada cultura e civilização. Esse Irã existe em diásporas por todo o mundo, mas também está nitidamente presente entre aqueles, no Irã, que reivindicam o direito de ter voz no futuro de seu país.

Depois, há um Irã cuja economia é um desastre. Apesar de estar assentado sobre a segunda maior reserva de gás, ele importa gás. A corrupção grassa - a Transparência Internacional situa o Irã em 168º lugar entre 180 países. Segundo o FMI, ele enfrenta a maior fuga de cérebros do mundo. Esse Irã desestabiliza sua vizinhança com seu apoio ao terrorismo, isola-se da cooperação internacional sobre o Afeganistão, vocifera sobre a destruição de Israel e sugere que o apoio americano ao Haiti é um artifício para invadi-lo. Esse Irã restringe o acesso de seus cidadãos educados à mídia internacional por medo.

O regime deliberadamente confunde esses "Irãs". Ele fala em vencer a batalha por tecnologia ao lançar minhocas ao espaço 40 anos depois que o homem chegou à Lua. Alega ser um defensor dos direitos humanos, mas iranianos que afirmam suas liberdades básicas são presos, espancados, baleados nas ruas e executados.

A solução da questão nuclear é importante porque as duas alternativas - o Irã com a bomba ou o Irã que pode ser bombardeado - são horríveis. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) disse que é incapaz de verificar se o programa nuclear iraniano é para fins exclusivamente pacíficos. O Irã não oferece nenhuma explicação crível para produzir material físsil com aplicação claramente militar.

Após meses de impasse, o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que o Irã estava pronto para um acordo com a AIEA para o fornecimento de combustível nuclear. Outros líderes iranianos imediatamente se opuseram. E, dias depois, Ahmadinejad anunciou que o Irã enriqueceria urânio a 20% - um passo significativo rumo a um material compatível com a fabricação de armas.

A questão nuclear incide sobre o futuro do regime de não-proliferação nuclear e o futuro do Oriente Médio. Países do Golfo Pérsico, provavelmente, entrariam na corrida nuclear se o Irã se tornar nuclear. Israel deixou claro que vê um Irã nuclear como uma ameaça existencial e agiria em sua autodefesa se fosse necessário. As consequências dessas duas possibilidades seriam devastadoras.

Brasil e Turquia. Para evitar isso, precisamos de uma ação que mostre unidade e determinação. Essa é uma razão pela qual fui à China na semana retrasada. O Conselho de Segurança precisa levar a sério suas responsabilidades, e não apenas países como a Grã-Bretanha e a China, mas membros não permanentes, como o Brasil e a Turquia.

A comunidade internacional está unida em sua oposição a um Irã nuclear. Há unidade também na clara oferta apresentada ao Irã de que, se ele for franco sobre seu programa nuclear, receberá apoio para um programa de energia nuclear civil - e, se não for, enfrentará uma pressão crescente. Chegou a hora da unidade.

Os céticos dizem que sanções podem ser cegas, que o Irã jamais aceitaria a humilhação e ainda está distante da capacidade nuclear. Tudo isso é verdade. No entanto, a questão não é essa. Sanções podem ser cegas, mas também podem ser direcionadas para o sistema financeiro, para a Guarda Revolucionária e para a tecnologia nuclear.

A oferta na mesa, proposta em junho de 2008 e ainda à espera de resposta, permite que o Irã reivindique direitos desfrutados por outros Estados. Mas, com esses direitos, vêm as responsabilidades. A recusa do Irã em esclarecer suas atividades significa que existe uma falta de confiança em suas afirmações de que o programa é para fins pacíficos.

Sanções não são uma bala de prata. Mas não é esse o teste. A questão é se sanções direcionadas, proporcionais e reversíveis se somariam à pressão dentro dessa sociedade complexa e vibrante por uma atitude mais sensata sobre a questão nuclear. Acredito que elas somariam, são urgentemente necessárias e podem ajudar a evitar o ponto crítico mais perigoso da atualidade na política mundial. TRADUÇÃO CELSO M. PACIORNIK

É O CHANCELER BRITÂNICO

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