Irã, Israel e a corrida contra o tempo

Para analistas, aumentou a perspectiva de confronto, com o potencial de EUA, e Teerã está perto da bomba

Simon Tisdall, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

Na semana passada, Barack Obama mostrou-se confiante de que Israel não atacaria o Irã sem antes consultá-lo. "O relacionamento entre Israel e EUA é forte o bastante a ponto de um de nós não tentar surpreender o outro", disse Obama à emissora israelense Canal 2.

Mas Obama deixou muito por dizer. Ele não disse que tentaria impedir ataques aéreos israelenses contra instalações nucleares iranianas - somente que esperava ser avisado com antecedência. E ele não disse que Washington se recusaria a ajudar ou participar de tal ataque. Obama disse que os EUA preferem uma solução diplomática. Mas, logo em seguida, veio o conhecido mantra: "Garanto a vocês que nenhuma opção foi excluída."

Ao contrário, nada do que Obama disse poderia afastar a possibilidade de o Irã reservar surpresas perigosas para EUA e Israel. A profundidade e a amplitude do confronto com Teerã em numerosas frentes - política, comercial, geográfica e física - aumentam exponencialmente. A situação torna-se mais imprevisível a cada dia. Não seria necessário muito para dar início a uma crise de grandes proporções.

Depois que ONU, EUA e União Europeia impuseram novas sanções ao país, um ressentido presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que o programa nuclear iraniano não recuaria.

O Irã vê-se envolvido em disputas ainda mais acirradas com seus vizinhos. Comentários recentes atribuídos ao embaixador dos Emirados Árabes nos EUA, segundo os quais seu país "não poderia conviver com um Irã nuclear", alimentaram tensões já existentes relativas a disputas envolvendo território e recursos energéticos, além da suposta subversão, por parte do Irã xiita, das monarquias lideradas pelos sunitas. Segundo o comentarista conservador Arnaud de Borchgrave, um ex-líder árabe alertou que "todos os líderes do Oriente Médio e do Golfo Pérsico querem o Irã longe das armas nucleares, e sabem que sanções não funcionarão. Como Israel, eles se queixam cada vez mais da fraqueza do governo americano.

A lista de pontos inflamáveis que poderiam levar a surpresas desagradáveis não para de crescer. Comandantes americanos no Iraque alertaram esta semana que um grupo militante xiita, Kataib Hezbollah, supostamente financiado e treinado pela Guarda Revolucionária do Irã, enviou combatentes ao Iraque para lançarem ataques coincidindo com a iminente retirada dos soldados americanos. No Afeganistão, forças da coalizão continuam a encontrar provas do apoio do Irã ao Taleban e às milícias do senhores da guerra, associados à Al-Qaeda.

No cada vez mais fragmentado sul do Líbano, ao menos segundo Israel, o Hezbollah está se armando para a guerra, com a ajuda da Síria, que estaria contrabandeando mísseis do Irã.

Há a ameaça de uma outra conflagração no flanco sul de Israel, onde a polêmica provocada pelos comboios internacionais de ajuda humanitária à Faixa de Gaza está endurecendo a oposição do Hamas a negociações de paz patrocinadas pelos EUA. O envio de novas embarcações para desafiar o bloqueio foi prometido por vários países, entre eles o Irã.

A possibilidade de o Irã provocar sozinho uma ou duas surpresas é ampliada pela crescente agitação doméstica. O lucro proporcionado pelo petróleo está em baixa e, independentemente do que diz Teerã, as sanções estão prejudicando o país. De grande importância, British Petroleum, Shell e Total receberam a companhia das empresas russa Lukoil, da malaia Petronas e de outras na restrição ou interrupção da venda de produtos refinados ao país, entre eles a gasolina.

Levando-se em consideração este contexto instável, um relatório publicado esta semana pelo independente Grupo de Pesquisas Oxford conclui que a perspectiva de hostilidades entre Irã e Israel, com o potencial de envolver os EUA, "aumentou consideravelmente". As consequências seriam devastadoras não apenas para a região, diz o documento, e o combate não se limitaria a ataques aéreos.

Funcionários do governo israelense dizem que os EUA e seus aliados têm, no máximo, dois anos para resolver a questão do programa nuclear iraniano antes que medidas militares se tornem inevitáveis. Outros dizem que o tempo restante é ainda menor. "As tendências atuais sugerem que o Irã seria capaz de produzir armas nucleares antes do fim do ano, representando para os EUA uma ameaça à qual seria estrategicamente impossível responder... Não acreditamos na possibilidade de conter um Irã dotado de armas nucleares", disse o ex-senador democrata e general americano da reserva Charles Wald num documento interno recente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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