Presidência do Irã / EFE
Presidência do Irã / EFE

Irã põe em funcionamento centrífugas modernas para enriquecer urânio

Decisão de Teerã faz parte da nova fase de redução de seus compromissos nucleares, em represália à decisão dos EUA de abandonar unilateralmente o acordo em 2018

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 07h41
Atualizado 09 de setembro de 2019 | 15h31

TEERÃ - O Irã anunciou neste sábado, 7, que colocou em funcionamento centrífugas mais modernas para aumentar o estoque de urânio enriquecido no país e que agora é capaz de aumentá-lo para além de 20%, em uma nova fase de redução de seus compromissos nucleares, o que preocupa a comunidade internacional.

No entanto, a República Islâmica disse que continuará autorizando o acesso dado até agora aos inspetores da ONU responsáveis pela supervisão de seu programa nuclear, antes de uma visita a Teerã pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Cornel Feruta.

O porta-voz da Organização de Energia Atômica do Irã, Behruz Kamalvandi, detalhou as medidas da nova etapa do plano para reduzir os compromissos assumidos por Teerã no acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, assinado em Viena em 2015. 

Essa nova fase é a terceira da estratégia adotada pelo Irã desde maio, em represália à decisão dos Estados Unidos de abandonar unilateralmente esse acordo em 2018.

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O presidente iraniano, Hassan Rohani, lançou esta fase na quarta-feira, ordenando expandir os limites para pesquisa e desenvolvimento nuclear. 

Kamalvandi disse a repórteres que 20 centrífugas IR-4 e 20 IR-6 foram ativadas na sexta-feira, enquanto o acordo de Viena apenas autoriza Teerã a produzir urânio enriquecido com centrífugas de primeira geração (IR-1). 

Essas centrífugas de quarta e sexta geração, "usadas para fins de pesquisa e desenvolvimento, ajudarão a aumentar a reserva" de urânio enriquecido, disse Kamalvandi.

O acordo limitou o nível de pureza que o Irã pode enriquecer seu urânio a 3,67% - adequado para gerar energia civil e bem abaixo da marca de 90% de armas nucleares. 

Inspetores nucleares da ONU relataram em julho que o Irã havia aumentado o enriquecimento para 4,5% de pureza. Kamalvandi afirmou que Teerã agora pode exceder o nível de 20%, um salto significativo em direção aos críticos 90%, "mas neste momento não há necessidade para isto". 

Ele acrescentou, no entanto, que "as partes europeias do acordo devem saber que não há muito tempo restante, e que se houver alguma ação a ser tomada (para resgatar o pacto), ela deve ser tomada rapidamente".

Reação dos EUA

O secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, por sua vez, comentou, em Paris, que seu país não está surpreso com o fato de o Irã ter decidido usar as novas centrífugas.

"Não estou surpreso que o Irã tenha anunciado que violaria o JCPOA (acordo nuclear iraniano de em 2015)", disse ele em uma entrevista coletiva com sua colega francesa, Florence Parly. "Eles já violam o Tratado de Não Proliferação há anos, portanto não é uma surpresa."

Kamalvandi insistiu que seu país pretende manter o mesmo grau de transparência sobre suas atividades. Segundo a AIEA, com o acordo de Viena, o Irã concordou em se submeter ao mais rigoroso regime de inspeção concebido por esta agência e é um dos elementos principais deste pacto assinado entre Irã, EUA, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha

"Com relação à vigilância e acesso da AIEA, os (...) compromissos (do Irã) em termos de transparência serão cumpridos como antes", acrescentou Kamalvandi.

Produção de urânio enriquecido

As novas centrífugas devem acelerar a produção de urânio enriquecido e aumentar as reservas do país, que desde julho excedem o limite (300 kg) estabelecido pelo acordo de Viena. 

Esse pacto ficou ameaçado depois que o presidente americano, Donald Trump, retirou-se unilateralmente em maio de 2018 e restabeleceu as sanções econômicas contra Teerã, que continuam se intensificando, em nome de uma política de "pressão máxima" para forçar Teerã a negociar um novo acordo. 

A restauração das sanções americanas priva o Irã dos benefícios econômicos que esperava do acordo de Viena. O texto previa o levantamento de parte das sanções internacionais em troca de Teerã limitar drasticamente seu programa nuclear para impedir que ele desenvolvesse uma arma atômica

Ao reduzir seus compromissos, Teerã - que sempre negou querer uma bomba nuclear - pretende pressionar os outros Estados membros do acordo para ajudá-lo a evitar sanções dos EUA e exportar seu petróleo. Os três países europeus que são membros do acordo multiplicam os esforços diplomáticos para salvar o texto. 

A linha de crédito de € 13,5 bilhões (cerca de US$ 15 bilhões) discutida nos últimos dias, que seria acordada com o Irã para reaplicar o acordo, topa com a rejeição de Washington de facilitar as sanções. 

O diretor interino da AIEA deve se reunir no domingo em Teerã com o presidente da Organização Iraniana de Energia Atômica, Ali Akbar, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Javad Zarif. / AFP e REUTERS

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