Irã 'limpa' radiação de base, indicariam fotos

Imagens de satélite em poder da AIEA mostrariam caminhões em instalação secreta tentando apagar vestígios de detonador usado só para fins militares

TEERÃ, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2012 | 03h08

Imagens de satélite de uma base militar do Irã obtidas pela Agência de Energia Atômica (AIEA) mostram caminhões e retroescavadeiras aparentemente tentando apagar vestígios de radioatividade. Inspetores suspeitam que no local tenha sido testado um detonador experimental de artefatos nucleares - tecnologia atômica usada exclusivamente para fins militares.

A informação da existência das imagens foi revelada pela agência Associated Press. As fotos até agora não foram divulgadas. Dois diplomatas que trabalham na agência atômica das Nações Unidas confirmaram aos repórteres que as imagens parecem mostrar forças iranianas tentando apagar rastros de radioatividade que o detonador teria deixado.

Segundo eles, nas fotos caminhões e retroescavadeiras adotam medidas de precaução usadas geralmente no transporte de solo contaminado por radioatividade. Autoridades do Irã não se manifestaram publicamente sobre o assunto.

Nêutrons. A suposta movimentação registrada nas imagens teria ocorrido na base de Parchin, um dos locais colocados sob suspeita pelos inspetores internacionais. No mês passado, em visita ao Irã, os funcionários internacionais tiveram acesso negado à instalação. Com o bloqueio, eles encerraram a missão e retornaram imediatamente a Viena, onde fica a sede da agência.

Suspeita-se que o Irã tenha testado um detonador que usa nêutrons para iniciar reações em cadeia. A informação teria sido passada à agência atômica da ONU há pelo menos seis meses por um Estado-membro não identificado e consta no último relatório sobre o programa iraniano, publicado em novembro.

Se os inspetores conseguirem provar que o Irã de fato testou em Parchin o detonador de nêutrons, tecnologia usada apenas para fins militares, a pressão internacional sobre Teerã deverá crescer ainda mais.

A república islâmica já chegou a demolir locais onde supostamente teria testado tecnologia usada para desenvolver a bomba antes que os inspetores pudessem entrar nas instalações. Há cinco anos, o complexo de Lavizan Shian, onde Teerã guardaria equipamento usado em um programa nuclear com fins militares, foi arrasado sem que os funcionários internacionais pudessem entrar na instalação.

O Irã disse ter demolido Lavizan Shian para construir um parque. Inspetores que foram levados ao local após a destruição encontraram traços de urânio com grau de enriquecimento usado apenas em ogivas nucleares.

Algo semelhante ocorreu na empresa Kalay-e Electric, a oeste de Teerã, há nove anos. O local foi amplamente reformado depois de a AIEA ter levantado suspeitas sobre o uso da instalação para desenvolver tecnologia atômica com fins militares. Amostras colhidas por funcionários da agência da ONU que estiveram depois na empresa também indicaram a presença de traços de urânio enriquecido.

Datas. Nos bastidores, diplomatas da AIEA afirmam que não está claro quando exatamente o detonador de nêutrons teria sido testado em Parchin. Alguns afirmam que a operação ocorreu por volta de 2003. Outros dizem que foi após essa data.

O calendário, nesse caso, é extremamente importante: agências de inteligência dos EUA acreditam que o Irã parou de desenvolver seu programa atômico com fins militares em 2003, enquanto espiões europeus e israelenses pensam que as atividades continuaram nos últimos anos.

Se o detonador foi de fato testado após 2003, ficará provado que a espionagem americana subestimou os avanços dos iranianos rumo à bomba. / AP

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