Irã: milhares protestam contra desvalorização da moeda

A polícia iraniana ameaçou comerciantes que fecharam suas lojas no principal bazar de Teerã e prendeu cambistas ilegais nesta quarta-feira, no primeiro sinal de descontentamento público com a desvalorização do rial, a moeda do Irã, que em menos de uma semana perdeu mais de um terço do valor. Os protestos desta quarta-feira marcam a primeira vez que os lojistas do bazar, classe que desde 1979 apoia a teocracia xiita, se voltou publicamente contra o governo. Dezenas de milhares de lojistas, comerciários e os chamados "bazaris" (grandes comerciantes) protestaram no Grande Bazar de Teerã e pediram a renúncia imediata do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de acordo com fontes e vídeos postados no YouTube. Desde o dia 24 de setembro, a moeda iraniana perdeu 35% do valor frente ao dólar.

Agência Estado

03 de outubro de 2012 | 17h49

"Morte ao governo enganador" e "Mahmoud, tenha vergonha, deixe a política", gritavam os lojistas e comerciários nos vídeos. A tropa de choque foi enviada ao Grande Bazar, um ponto turístico da capital iraniana. Pelo menos 150 pessoas foram detidas, de acordo com websites da oposição.

Na terça-feira, Ahmadinejad disse que uma gangue de 22 pessoas era responsável pela queda no valor do rial. O presidente iraniano deixará o cargo em 2013, não pode se reeleger e enfrenta um forte desgaste político, decorrente em parte da sua disputa de poder com o líder máximo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Muitos lojistas sindicalizados, como de roupas, móveis e joias, disseram que pediram por um locaute para mostrar preocupação com a moeda. As flutuações no valor do rial forçaram vários empresários a adiarem acordos e ajustarem os preços. Tropas de choque invadiram o distrito de Ferdowsi, onde prenderam cambistas e também ordenaram o fechamento de casas de câmbio licenciadas. Os comerciantes ameaçaram não abrir as portas nesta quarta-feira, mas a polícia reprimiu os que aderiram ao protesto.

"O bazar de Teerã não está fechado. A polícia lidará com as guildas que fecharam suas lojas para causar perturbações", disse o coronel Khalili Helali. Sites de câmbios também foram proibidos de prover atualizações.

A população está cada vez mais descontente com a combinação de desvalorização da moeda e aumento de preços, que colocou produtos triviais como carne de frango e de carneiro fora do alcance de muitos iranianos de baixa renda.

O acentuado declínio do rial é atribuído às sanções impostas pelo Ocidente e às políticas do governo. O problema também está enfraquecendo Ahmadinejad, cujos adversários afirmam ser o responsável pela situação. Muitos economistas afirmam que o governo deliberadamente provoca o aumento do preço do dólar para cobrir o déficit no orçamento. Como o setor público recebe 90% das receitas estrangeiras das vendas do petróleo, câmbio mais alto significa mas rials para o governo.

Na segunda-feira, dia 24 de setembro, cada dólar valia 23 mil rials. Na terça-feira (2 de outubro), cada dólar valia entre 35,5 mil e 40 mil rials. A forte queda no valor da moeda iraniana acelerou a inflação no Irã, que é vista como superior à taxa de 23,5% divulgada pelo banco central. O país, segundo o governo, tem reservas de US$ 100 bilhões em moeda estrangeira, mas importa alimentos e o embargo provocou uma queda nas exportações de petróleo. O Tesouro americano estima que o Irã está obtendo US$ 5 bilhões por mês com a venda de petróleo, após a entrada em vigor do embargo em meados deste ano.

As informações são da Associated Press e da Dow Jones.

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