Irã, o tigre de papel da política internacional

Apesar de todo perigo representado por Mahmoud Ahmadinejad, presidente iraniano é um mágico de um único truque, sempre com os mesmos argumentos

Roger Cohen The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

No mês passado, tomei café da manhã em Nova York com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Outros jornalistas almoçaram ou jantaram com ele. A paixão de Ahmadinejad pelo Imã Oculto, cuja volta iminente ele espera, só se compara com sua paixão pela imprensa ocidental.

Naquele momento, decidi não escrever sobre o encontro. Estava muito aborrecido - com o alvoroço da mídia, com as provocações de Ahmadinejad e com a esterilidade do atual debate sobre o Irã, girando sempre em torno da propagação do medo, da ignorância e do deplorável cozido ocidental de cenouras e porretes.

Ahmadinejad é um mágico de um único truque. Seu jogo é o de dois pesos, duas medidas. Questionado sobre o programa nuclear iraniano, ele retrucará com o arsenal nuclear não declarado de Israel. Questionado sobre as dificuldades econômicas do Irã, ele responderá com os manifestantes americanos de setembro de 2008. Questionado sobre a proliferação da pena capital no Irã, ele apontará a execução no Texas. Questionado sobre mentiras iranianas, contra-atacará com direitos humanos e a prisão iraquiana de Abu Ghraib.

Não surpreende que, no mundo "pós-americano" de Fareed Zakaria, ele tenha um público. Ele é um adepto contumaz, com um toque de Tony Curtis em O Homem que Odiava as Mulheres, de mudar de personalidade com assustadora facilidade.

Juntem algumas loucuras para ganhar manchetes - o 11 de Setembro auto-infligido, ou o Holocausto como invenção, ou "o Irã é o país mais livre do mundo" - e teremos um astro e vilão midiático pós-moderno.

E o que todas essas palavras significam? Eu diria que não muito além da miséria desnecessária para 71 milhões de iranianos isolados. O sujeito late muito e morde pouco.

Ahmadinejad é hediondo, mas não creio que seja perigoso. Algumas pessoas o consideram ameaçador, é claro, mas outras - em muito maior quantidade, eu diria - acham conveniente considerá-lo perigoso.

O presidente iraniano está entrando em seu sexto ano no cargo, a República Islâmica está mais dividida do que nunca, a juventude iraniana foi brutalizada e há um programa nuclear que, um pouco como o "processo de paz" no Oriente Médio, persiste desafiando uma definição ao mesmo tempo que desafia um desfecho.

Li com interesse num artigo recente de meus colegas John Markoff e David Sanger que "no ano passado, as estimativas israelenses sobre quando o Irã terá uma arma nuclear haviam sido estendidas para 2014". Considerando que vários líderes israelenses previram que o Irã teria uma bomba em 1999 ou 2004, ou em cada ano desde 2005, uma década e meia se passou sem o lobo aparecer à porta.

Claro, essas previsões são necessariamente aleatórias, as centrífugas de Natanz já podem ser infectadas por vírus de computador como o Stuxnet, e cientistas iranianos parecem pistaches iranianos: estão à venda. Mas há nisso tudo um padrão perigoso de alarmismo israelense e americano.

Precisamos de cabeças frias. As alusões nazistas insustentáveis, abundantes no caso do Irã, rebaixam as vítimas do Holocausto e conduzem a guerras desastrosas. Uma guerra sangrenta foi travada no Afeganistão, vizinho ocidental do Irã. Convém lembrar, contudo, que Saddam Hussein disse a seus captores que havia cultivado uma ambiguidade nuclear como elemento de dissuasão apesar de seu programa ser precisamente nulo.

O que dizer do programa nuclear do Irã? O Irã continua signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear; inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estão em Natanz; o número de centrífugas que estão sendo usadas para fazer urânio pouco enriquecido (longe do grau necessário para armas) caiu 23% desde maio de 2009 e a produção estagnou; agências de inteligência americanas sustentam que o Irã não tomou a decisão de construir uma bomba; qualquer decisão de "ruptura" seria anunciada porque a AIEA seria expulsa; o tempo entre a "ruptura" e uma arma capaz de ser disparada é significativo.

Estou com Mark Fitzpatrick, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, que disse este ano ao jornal The Washington Post: "O Irã prosseguirá de um jeito ou de outro na formação de seu estoque, mas jamais fará uma bomba nuclear porque sabe que cruzar essa linha provocaria um ataque militar imediato." A República Islâmica é um caso de estudo desse tipo de confusão, mas é lúcida sobre um único objetivo: a autopreservação.

Portanto, sobra tempo. Mas a indústria dos vaticínios está empolgada, com Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, declarando que o governo de Barack Obama "sabe que é uma quase certeza que Israel agirá contra o Irã em breve se nada ou ninguém interromper o programa nuclear" e estabelecendo "uma chance acima de 50%" de que Israel atacará até julho de 2011.

Michael Oren, o embaixador israelense nos Estados Unidos, usou o Yom Kippur, em setembro, para fazer um discurso agourento em sinagogas, advertindo sobre as escolhas fatídicas colocadas a Israel por "um Irã radical, genocida". Oren teve menos para dizer - e a maior parte disso depreciativa - sobre as conversações de paz diretas entre israelenses e palestinos inauguradas com pompa duas semanas antes na Casa Branca e já em compasso de espera.

Sim, Ahmadinejad é o bicho-papão do montador de elencos. Uma das coisas para as quais ainda temos tempo, se não estivermos brincando com o espectro do Irã, é dar um sério impulso às negociações israelense-palestinas, o que enfraqueceria ainda mais o presidente iraniano.

Eu não espero isso, contudo. E aí vão outras duas previsões: Obama não atacará o Irã e Israel não o fará tampouco. Nem até julho, nem nunca. O Irã é um tigre de papel, uma ameaça pós-moderna: ele tem muitas utilidades, mas uma terceira guerra do Ocidente contra um país muçulmano seria fora de propósito. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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