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Irã aumenta nível de enriquecimento de urânio e promete quebrar outros acordos ‘em 60 dias’

Esta seria a segunda violação intencional do acordo multipartidário, colocando-o em risco de um colapso total; Alemanha e Reino Unido pedem a Teerã que volte atrás de decisão

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 04h55
Atualizado 08 de julho de 2019 | 07h47

TEERÃ - O Irã confirmou neste domingo que começaria nas próximas horas a enriquecer urânio em um nível proibido pelo acordo de 2015 sobre seu programa nuclear, e ameaçou se liberar de outras obrigações "em 60 dias".

Esta seria a segunda violação intencional do acordo multipartidário, colocando-o em risco de um colapso total. Os Estados Unidos abandonaram o pacto no ano passado e, desde então, Teerã alertou que aumentará progressivamente as atividades nucleares, a menos que Europa, China e Rússia obtenham de Washington o alívio de suas sanções econômicas.

Em comunicados separados, os governos da Alemanha e do Reino Unido pediram a Teerã que voltasse atrás em sua decisão. Os dois países indicaram estar em contato "com as outras partes" envolvidas para definir uma resposta à decisão iraniana. Já a França pediu "firmemente" ao Irã que interrompa todas as suas atividades que não estejam em conformidade com o acordo de Viena.

"Por enquanto, chegaremos a um enriquecimento de 5%", disse o porta-voz da Organização da Energia Atômica do Irã, Behruz Kamalvandi, em entrevista coletiva conjunta com o vice-ministro de Exteriores, Abbas Araghchi, veiculada pela televisão estatal.

Apesar de ultrapassar o nível 3,67% de enriquecimento de urânio acertado no acordo nuclear de 2015, o Irã ainda está longe dos 90% necessários para a fabricação da bomba atômica.

Teerã afirma que sua decisão de se liberar de alguns compromissos busca apenas salvar o acordo nuclear iraniano assinado em Viena em julho de 2015. É parte da resposta iraniana à decisão dos Estados Unidos de abandonar unilateralmente o pacto em maio de 2018 e restabelecer sanções contra o Irã.

Este novo giro ocorre em um momento de escalada militar entre Washington e Teerã no Golfo Pérsico. Recentemente, os EUA e a Arábia Saudita atribuíram ao Irã os ataques a petroleiros no Golfo de Omã, além da derrubada de um drone americano na região.

O vice-chanceler iraniano ameaçou neste domingo se liberar de outras obrigações em matéria nuclear, sem revelar quais, "em 60 dias", a menos que se encontre "uma solução" com seus sócios para responder aos seus pedidos, que se trataram, principalmente, da possibilidade de o Irã seguir vendendo seu petróleo e comercializar com outros países, referindo-se às sanções americanas.O Irã ameaçou recentemente retomar o projeto de construção de um reator de água pesada em Arak.

Já o chanceler do Irã, Mohammad Javad Zarif, assinalou que a sobrevivência do acordo de Viena depende dos europeus. Segundo ele, "cada uma destas medidas só poderá ser anulada se Berlim, Londres e Paris reagirem conforme o texto".

O retorno das sanções americanas afastou as empresas estrangeiras que haviam começado a retornar ao Irã e derrubou a economia do país. Em maio passado, Teerã anunciou que renunciaria a dois dos compromissos assumidos em Viena: o respeito ao limite de seus estoques de água pesada (1,3 tonelada) e o imposto às suas reservas de urânio levemente enriquecido (330 kg).

No dia 28 de junho, Alemanha, China, França, Reino Unido e Rússia anunciaram a criação do sistema do Apoio à Troca Comercial (Instex, na sigla em inglês), mecanismo para permitir operações econômicas entre países europeus e o Irã, contornando as sanções dos EUA.Teerã reconheceu os "progressos" feitos para auxiliar o país a superar os efeitos das sanções, mas disse que eram “insuficientes” para que o Irã não quebre o pacto estabelecido anteriormente.

Ao desrespeitar seus compromissos, o Irã corre o risco de a questão de seu programa nuclear ser levada ao Conselho de Segurança da ONU, que poderia restabelecer sanções levantadas. Os países europeus, China e Rússia tentam solucionar o impasse sem recorrer ao Conselho, uma vez que Teerã assinalou que isso implicaria a morte do acordo.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, afirmou neste domingo que o anúncio do Irã de que irá superar os níveis de enriquecimento de urânio permitidos no acordo nuclear de 2015 é um "passo muito perigoso".

"Faço um apelo a meus amigos, líderes de França, Reino Unido, Alemanha", que assinaram este acordo para que imponham "duras sanções" à República Islâmica.

A pedido dos Estados Unidos, a Agência Internacional de Energia Atômica terá uma reunião extraordinária no próximo dia 10 para analisar os anúncios feitos pelo Irã. / AFP, EFE e REUTERS

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