EFE/ALBA VIGARAY
EFE/ALBA VIGARAY

Irã quer aproveitar isolamento de Trump para preservar pacto nuclear

Durante visita aos EUA, presidente iraniano lança ofensiva diplomática e se reúne com países aliados de Washington

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Nova York, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2017 | 05h00

NOVA YORK - Na semana em que Donald Trump fez sua estreia na ONU com um discurso belicoso e unilateralista, o presidente iraniano, Hassan Rohani, falou em paz e moderação e usou sua passagem por Nova York para uma ofensiva diplomática marcada por reuniões com alguns dos principais aliados internacionais de Washington.

Os países europeus rejeitaram em uníssono a ameaça de Trump de abandonar ou minar a implementação do acordo que permitiu o levantamento de sanções contra Teerã em troca do congelamento ou reversão de aspectos de seu programa nuclear. O isolamento dos EUA foi amenizado pelo apoio de Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, que não participou das negociações que levaram à assinatura do pacto em 2015, durante o governo de Barack Obama.

Líder mais próxima dos EUA na Europa, a britânica Theresa May se encontrou com Rohani e lhe disse que seu país está “determinado” a garantir a manutenção do pacto, negociado entre o Irã, a União Europeia e seis países - EUA, China, Alemanha, França, Inglaterra e Rússia.

Trump deu indicações de que mudará a posição americana, o que tem o potencial de desmantelar o mais importante acordo de não proliferação nuclear em vigor. Analistas não acreditam que o presidente optará pela retirada formal dos EUA do pacto. “Isso deixaria os EUA ainda mais isolados e daria uma vantagem em termos de propaganda ao Irã”, disse ao Estado Aaron David Miller, especialista em Oriente Médio do Wilson Center, em Washington.

Miller está convencido de que Trump adotará um caminho alternativo e se recusará a certificar o cumprimento das obrigações pelo Irã em informe que enviará ao Congresso até o dia 15 de outubro, o que criará incerteza sobre o futuro do acordo. “Com isso, ele jogaria a bola para o Congresso, que teria 60 dias para decidir se reimpõe ou não sanções contra o Irã.”

“A eventual recusa em certificar o cumprimento das obrigações por Teerã não significará a remoção dos EUA do acordo”, ressaltou Suzanne Maloney, especialista em Irã do Centro Saban de Políticas para o Oriente Médio do Brookings Institution, em Washington. “Isso trará consequências em relação ao papel do Congresso e poderá levar a circunstâncias nas quais os EUA comecem a descumprir o acordo, o que nos colocará em conflito com nossos parceiros diplomáticos, além do Irã”, disse Maloney.

Depois de se reunir com ministros das Relações Exteriores dos países signatários do acordo, na quinta-feira, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, reconheceu que o Irã está cumprindo suas obrigações. Mas ele afirmou que Teerã desrespeita o “espírito” do acordo ao realizar testes de mísseis balísticos, apoiar o regime de Bashar Assad, na Síria, e sustentar grupos terroristas como o Hezbollah.

"É muito difícil dizer que as expectativas das partes que negociaram o acordo foram atendidas. Talvez os aspectos técnicos tenham sido, mas no contexto amplo, as aspirações não se realizaram", afirmou. Segundo ele, um dos principais objetivos da negociação era dar mais estabilidade à região, o que não ocorreu.

Defensores do acordo, os europeus sustentam que seu escopo se limita ao programa nuclear iraniano. Nesse aspecto, ele é efetivo, argumentam. A Agência Internacional de Energia Atômica já realizou oito avaliações sobre a implementação das obrigações assumidas pelo Irã. Em todas, concluiu que não há violações dos compromissos.

Os europeus sugerem que os problemas apontados pelos Estados Unidos sejam discutidos em outro fórum de negociação com Irã, caminho que manteria o acordo de 2015 intacto. Mas Trump indicou que gostaria de renegociar os seus termos, o que Miller considera improvável.

Se os Estados Unidos restabelecerem sanções contra o programa nuclear iraniano, será muito difícil para os europeus cumprirem sua promessa de manterem o acordo de qualquer maneira, avaliou Miller, já que a região tem fortes vínculos com o sistema financeiro americano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.