Irã recua e aceita diálogo com a ONU

Pela primeira vez em três anos, o Irã aceitou ontem discutir a acusação de que está tentando obter tecnologia nuclear para fins militares. A informação foi revelada pela Associated Press, citando fontes diplomáticas. Ontem, o líder do Legislativo de Teerã, Ali Larijani, informou que seu país terá "negociações sérias" com as potências.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h04

O diálogo informado pelas fontes diplomáticas ocorreria durante uma visita a Teerã de funcionários da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU. A data do encontro entre os diplomatas e as autoridades iranianas, porém, não foi revelada.

Em novembro, AIEA publicou seu mais amplo relatório sobre o programa de Teerã, no qual mostrava indícios de que cientistas iranianos buscaram tecnologia nuclear para fins militares.

A notícia da volta do diálogo veio à tona enquanto o presidente Mahmoud Ahmadinejad chegava à última etapa de seu giro pela América Latina, o Equador, depois de deixar Cuba.

Bomba nuclear. Ainda ontem, o ex-vice-diretor-geral da AIEA Olli Heinonen advertiu em um artigo publicado na revista Foreign Policy que agora o Irã está a um ano de ter material suficiente para fabricar uma bomba nuclear, após transferir a produção de urânio enriquecido a 20% para uma instalação subterrânea na cidade de Fordo. O finlandês disse que, depois que o Irã tiver um estoque de 250 quilos de urânio enriquecido a 20%, em poucas semanas poderá purificá-lo a 90%, o grau necessário para uma bomba.

Aliados dos EUA estão avançando no cerco às exportações de petróleo do Irã. Os 27 países-membros da União Europeia (UE) fecham os últimos detalhes para impor um embargo total ao petróleo iraniano. Na Ásia, o Japão decidiu reduzir a importação de Teerã e a Coreia do Sul lança hoje uma missão ao Oriente Médio em busca de fontes alternativas para o petróleo iraniano.

Diplomatas europeus disseram ao Estado que um acordo que veta a compra de óleo iraniano é "iminente". A solução mais provável é a implementação de uma restrição progressiva às importações de petróleo, que chegaria a 100% em até seis meses. Se o embargo europeu for de fato aplicado, Teerã terá de arrumar um novo destino para 18% de sua produção de petróleo. Juntos, os países do bloco europeu são o principal cliente do Irã, atrás apenas da China.

O cerco externo à indústria do Irã - que representa 60% da atividade econômica nacional - busca frear as ambições nucleares da república islâmica.

No final do ano passado, o Congresso americano aprovou uma lei que torna quase impossível a importação de petróleo por refinarias dos EUA. Na mesma época, o bloco europeu começou a discutir o embargo, mas esbarrou na resistência de Grécia, Itália, Espanha, República Checa e de outros países que importam petróleo iraniano. Eles argumentaram que um novo golpe contra suas economias poderia ser fatal para o euro.

Alain Juppé, chanceler francês, passou a liderar uma operação para buscar alternativas de fornecimento para os demais parceiros europeus, multiplicando contatos com outros produtores mundiais. Mas, enquanto o discurso oficial em 2011 foi de pressão sobre os iranianos, a maioria dos governos europeus incrementou as compras de petróleo de Teerã - sobretudo para compensar o corte parcial do fornecimento da Líbia. O novo cenário acabou transformando o Irã no maior fornecedor para diversos países. Na Grécia, 25% do petróleo vem do Irã e na Itália, 13%.

O governo americano ainda ganhou o apoio do Japão. Após visita do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, Tóquio confirmou que reduzirá a compra de petróleo iraniano. O Japão já abriu negociações com a Arábia Saudita e com os Emirados Árabes para substituir o petróleo iraniano, que representa 10% de seu consumo. Geithner planeja uma viagem na semana que vem a Riad para tentar garantir que os sauditas atendam aos novos pedidos de fornecimento.

A Coreia do Sul também caminha nessa direção. Hoje, o premiê Kim Hwang-sik visitará Omã e Emirados Árabes para tentar fechar um acordo de fornecimento. Seul atualmente compra 10% de seu petróleo do Irã.

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