Gabinete da presidência do Irã / AP
Gabinete da presidência do Irã / AP

Irã suspende parte do pacto nuclear e pressiona europeus; EUA impõem sanções

Teerã anuncia que deixará de vender urânio enriquecido e excedente de água pesada e ameaçou retomar enriquecimento sem limite; em resposta, Trump anuncia novas sanções contra o país

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2019 | 04h03
Atualizado 08 de maio de 2019 | 20h46

TEERÃ - Os EUA impuseram nesta quarta-feira, 8, novas sanções contra o Irã horas depois de o presidente iraniano, Hassan Rohani, ameaçar enriquecer mais urânio se as punições americanas – que afetaram sua economia – não forem suspensas. Rohani declarou que o país deixará de seguir dois compromissos firmados sob o acordo nuclear iraniano, de 2015, elevando uma crescente confrontação entre Washington e Teerã. 

Segundo Rohani, a partir de agora, o Irã não venderá o excedente de urânio enriquecido (acima de 300 kg), nem o de água pesada. O anúncio ocorreu um ano depois de Donald Trump retirar totalmente os EUA do acordo, firmado entre as cinco potências do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, o grupo P5+1. 

Diferentemente de Trump, Rohani não renunciou a todo o acordo e notificou aos países europeus que estava tomando “passos cuidadosos” e daria à Europa 60 dias para que escolha entre ficar do lado de Trump ou salvar o pacto. 

O Irã quer que os europeus encontrem uma maneira de compensar as perdas causadas pelas sanções unilaterais dos EUA, comprando seu petróleo e removendo obstáculos às transações com o sistema bancário iraniano. Se as exigências não forem atendidas, Rohani explicou que o Irã não atenderá mais ao limite de enriquecimento de urânio estabelecido em 3,67%. 

“Se nossos interesses forem mantidos, especialmente a venda de petróleo e a eliminação de sanções bancárias, voltaremos às condições anteriores”, disse Rohani. O segundo passo, segundo ele, será finalizar a construção do reator de água pesada da usina de Arak. “O caminho que nós escolhemos hoje não é o caminho da guerra, é o caminho da diplomacia. Mas diplomacia com uma nova linguagem e uma nova lógica.”

Após o anúncio, o governo americano afirmou que não cederá à “chantagem nuclear do Irã” e divulgou um decreto assinado por Trump aplicando sanções sobre ferro, aço, alumínio e cobre iranianos. O presidente americano disse que outras sanções ainda poderão ser decretadas, mas falou em “encontrar líderes iranianos” para negociar no futuro. 

“Desde que deixamos o acordo iraniano, que não tem conserto, os EUA puseram 12 condições que oferecem as bases para um pacto mais amplo com o Irã. Estou ansioso para um dia me encontrar com líderes do Irã para que possamos trabalhar em um pacto, muito importante, assumindo os passos para dar ao país o futuro que ele merece.”

No último ano, os EUA impuseram sanções a cerca de mil indivíduos e entidades iranianas em uma tentativa de derrubar sua receita do petróleo. Mesmo com a economia sucateada, o Irã continuou a cumprir os compromissos estabelecidos no acordo nuclear, segundo as inspeções feitas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

No último ano, o Irã exportou um total de US$ 5,5 bilhões de produtos que utilizam as quatro indústrias de metais que são alvo das novas sanções, de acordo com dados analisados pela Fundação pela Defesa da Democracia. 

Hoje, em seu comunicado, Trump disse que as novas punições têm como alvo um setor responsável por 10% das exportações iranianas. As sanções americanas já barravam a comercialização de ferro, aço e alumínio iraniano com companhias estrangeiras. 

A retirada dos EUA do acordo nuclear criou uma divisão com os aliados europeus, que não abandonaram o pacto e têm insistido para que Teerã se mantenha nele. Funcionários de governos europeus têm afirmado ao governo americano que o pacto tem sido útil para conter as ambições nucleares iranianas – que Teerã afirma serem pacíficas. 

De acordo com diplomatas europeus, o pacto tem dado às nações ocidentais poder para que outras questões também possam ser negociadas, como o programa de mísseis balísticos do Irã.

Reações

Ainda nesta quarta, Israel afirmou que não permitirá que Teerã fabrique armas nucleares. "Esta manhã, no meu caminho até aqui, escutei que o Irã pretende continuar com seu programa nuclear. Não deixaremos que o Irã obtenha armas nucleares", disse o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, durante uma cerimônia do dia dos mortos israelenses em guerras e atentados.

Já a Rússia denunciou a "pressão irracional" sobre o Irã. O presidente Vladimir Putin criticou as "decisões impensadas e arbitrárias" que levam a uma pressão irracional sobre o Irã, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acrescentando que a Rússia continua "comprometida" com o acordo nuclear iraniano. / W. POST, NYT, EFE e AFP

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