Irã reprime homenagem a mortos após eleição

Polícia invade cemitério e dispersa manifestação; há vários detidos

AFP e Reuters, TEERÃ, O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2009 | 00h00

A polícia iraniana usou cassetetes e gás lacrimogêneo para dispersar uma manifestação em Teerã, que homenageava as vítimas dos confrontos ocorridos após a polêmica eleição presidencial de 12 de junho. Centenas de pessoas se reuniram em um cemitério da capital, onde está enterrada Neda Agah-Soltan, que foi assassinada pelas forças iranianas durante um protesto e se tornou o símbolo dos opositores. Ontem, sua morte completou 40 dias - data que, segundo a tradição muçulmana xiita, deve ser lembrada em uma cerimônia conhecida como "arbayin".Cerca de 300 pessoas estavam no cemitério quando Mir Houssein Mousavi - líder da oposição e candidato derrotado na votação - chegou ao local e foi recebido aos gritos de "Mousavi, nós o apoiamos". Em seguida, os policiais prenderam diversos manifestantes e obrigaram o opositor a deixar o cemitério. "A polícia cercou Mousavi assim que ele chegou e não deixou ele recitar os versos do Alcorão que costumam ser ditos nessa ocasião", disse uma testemunha que não quis se identificar.O protesto de ontem mostra que a oposição continua se negando a aceitar a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, mesmo com a violenta repressão das forças de segurança, com a prisão de centenas de manifestantes e após repetidos apelos do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, para que o resultado da votação fosse aceito. Os opositores afirmam que a eleição foi fraudada. Desafiando a polícia, a multidão tentou prosseguir com a marcha em direção a Grand Mosala, um importante local para orações ao ar livre no centro de Teerã. No entanto, centenas de policiais e integrantes da Guarda Revolucionária cercaram o local para barrar os manifestantes. Os jovens então atearam fogo em latas de lixo e arremessaram pedras nas forças de segurança. Segundo testemunhas, a polícia também quebrou a janela dos carros que buzinaram para apoiar os manifestantes. Outros protestos menores ocorreram em vários bairros de Teerã no fim da tarde. Muitos gritavam frases como "morte aos ditadores" e "independência, liberdade, república iraniana", em referência a um slogan comum na Revolução de 1979: "independência, liberdade, República Islâmica."De acordo com os opositores, a manifestação foi transferida para o cemitério após o governo proibir que a homenagem ocorresse na Grand Mosala. Ao lado do túmulo da filha, a mãe de Neda disse que ela era apenas uma espectadora inocente. "Era uma jovem apaixonada pela liberdade", disse à rede britânica BBC. "Ela não era politizada. Só estava lá, assim como todos os outros jovens iranianos."

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