Irã: Sucessão reabre janela de diálogo; avanço é incerto

A chegada de Hasan Rouhani à presidência do Irã tende a resultar em um comportamento mais razoável das partes envolvidas nas negociações em torno do programa nuclear do país. A avaliação é de especialistas consultados pela Agência Estado. Na terça-feira, menos de 48 horas depois de ter tomado posse, o novo presidente do Irã manifestou a prontidão de seu país para engajar-se novamente nas negociações com as potências internacionais sobre os rumos do programa nuclear da república islâmica. "O Irã está pronto para engajar-se em conversas sérias e substanciais, sem perda de tempo", declarou Rouhani em sua primeira entrevista coletiva como presidente iraniano. Ele aproveitou para manifestar expectativa de que a postura do Ocidente seja "de diálogo, e não de ameaças."

RICARDO GOZZI, Agência Estado

11 de agosto de 2013 | 08h17

Essa abertura pode ser considerada tudo, menos inesperada. Em junho, ao irem às urnas, os eleitores iranianos priorizaram temas de ordem prática. O apoio à beligerante retórica anti-Ocidente adotada por Ahmadinejad acabou em segundo plano quando confrontado com as dificuldades enfrentadas por uma crescente parcela da população no cotidiano, em especial por causa dos embargos impostos ao Irã pelos Estados Unidos e alguns de seus aliados diante das suspeitas de que o país teria a ambição de desenvolver um programa nuclear bélico. O Irã sustenta que seu programa nuclear é civil e tem finalidades pacíficas, como a geração de energia elétrica e a pesquisa de isótopos medicinais, estando de acordo com as normas do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do qual é signatário.

Diante disso, o moderado Hasan Rouhani, tido inicialmente como um azarão, consolidou na reta final da campanha o apoio dos ex-presidentes Mohammed Khatami e Akbar Hashemi Rafsanjani. Elegeu-se em primeiro turno, vencendo candidatos conservadores que contavam com a simpatia dos aiatolás. "O povo talvez quisesse alguém mais conciliador, e Rouhani é um exímio negociador. A fama dele nesse aspecto é folclórica, aliás. Talvez até por isso haja toda essa aversão ao Ahmadinejad neste momento", diz Olavo Henrique Furtado, professor de negócios internacionais da Trevisan Escola de Negócios.

Trata-se de uma situação exatamente oposta à de quando Ahmadinejad elegeu-se para seu primeiro mandato presidencial, em 2005. Na ocasião, ele conseguiu capitalizar o descontentamento dos iranianos com as infrutíferas tentativas de diálogo com o Ocidente defendidas pelo então presidente Mohammed Khatami, da linha moderada. Já em 2009, quando foi reeleito, a oposição denunciou fraude eleitoral e os protestos contra os resultados oficiais foram brutalmente reprimidos pelas forças de segurança.

Furtado acredita que a tendência agora é de que um novo processo de negociação comece a tomar forma, mas é impossível fazer qualquer tipo de previsão sobre quando isso ocorreria, especialmente por causa do histórico de volatilidade regional. "Toda vez que surge um fato novo, você abre a porta para um novo tipo de postura. É difícil prever quanto tempo isso pode demorar, mas a janela se abriu e haverá alguma reação imediata, mais à saída de Ahmadinejad do que à eleição de Rouhani", acredita Furtado.

Já o diretor da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, Hadi Ghaemi, diz esperar uma abordagem mais razoável das negociações nucleares. "A expectativa é muito grande no Irã, mas um encaminhamento positivo das negociações vai exigir sinceridade dos dois lados, tanto dos norte-americanos quanto dos iranianos", adverte.

É improvável, por exemplo, que a sucessão presidencial resulte em alguma mudança nas posições conhecidas do Irã, como insistir em seu direito de explorar a energia nuclear com fins pacíficos. "O Irã não é um Estado laico. O regime é governado pelos aiatolás. Qualquer postura mais moderna vai sempre esbarrar nessa dicotomia de abertura econômica e questões políticas", afirma Furtado. Para ele, não se deve entender que o novo presidente adote uma postura de mudança radical. "Existe um projeto iraniano, independente de quem seja o presidente, de ser uma potência regional. E isso não vai mudar", observa.

Ghaemi, por sua vez, salienta que ninguém até agora produziu provas de que o Irã esteja construindo uma bomba, mas o governo iraniano também não vem sendo muito cooperativo ou transparente em relação ao programa nuclear. "Dito isto, os dois lados têm preocupações válidas. Rouhani prometeu transparência e disse que vai permitir a realização de inspeções para acalmar a comunidade internacional e mostrar que a atividade nuclear iraniana tem fins pacíficos. É a esse ponto que precisamos chegar", diz o iraniano. Ele acredita que o novo presidente vai se empenhar em melhorar a situação, mas é preciso lembrar que o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, ainda detém a palavra final e ainda é preciso observar se ele irá apoiar ou não os esforços de Rouhani. "E isso não vai ser fácil", antecipa Ghaemi.

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