Atomic Energy Organization of Iran via AP
Atomic Energy Organization of Iran via AP

Irã tenta acelerar programa nuclear para pressionar EUA e aliados ocidentais

Especialistas dizem que cientistas iranianos estão a poucos meses de obter material suficiente para alimentar uma ogiva atômica, o que poderia aumentar a tensão com Israel e Arábia Saudita e provocar uma corrida armamentista no Oriente Médio 

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 05h00

WASHINGTON - O Irã está a um mês de obter material suficiente para alimentar uma arma nuclear, segundo especialistas, aumentando a pressão para que os EUA e seus aliados retomem o acordo de 2015. O risco de uma bomba atômica iraniana é provocar uma corrida armamentista no Oriente Médio, principalmente por parte de rivais, como Israel e Arábia Saudita

Especialistas que estudam novos relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU, supõem que, ao enriquecer combustível nuclear nos últimos meses, Teerã esteja próximo da capacidade de armar uma ogiva. Autoridades americanas, que viram estimativas confidenciais, admitiram nos bastidores que o Irã levaria apenas “alguns meses”. A fabricação de uma ogiva real – que coubesse em um míssil –, no entanto, levaria mais tempo. O Irã insiste que não deseja um arsenal nuclear.

O país, porém, nunca esteve tão perto de uma arma nuclear desde antes de o presidente Barack Obama firmar o acordo nuclear. O pacto forçou os iranianos a enviar mais de 97% de seu combustível nuclear para fora do país, e os EUA acreditavam que levaria pelo menos um ano para que eles produzissem o necessário para obter uma bomba.

Agora, mais de três anos depois de Donald Trump se retirar do tratado, um constante esforço iraniano para retomar sua capacidade atômica parece ter tido sucesso. Um relatório divulgado na segunda-feira pelo Instituto de Ciência e Segurança Internacional, que analisa as descobertas da AIEA, conclui que, nos últimos meses, o Irã enriqueceu urânio com 60% de pureza, colocando o país em posição de produzir o combustível para uma bomba em “apenas um mês”. O combustível de uma segunda arma, diz o relatório, poderia ser produzido em menos de três meses. Uma terceira, em menos de cinco.

O principal autor do relatório, David Albright, advertiu que as ações do Irã sinalizaram um esforço do novo presidente Ebrahim Raisi para buscar termos mais favoráveis ao Irã nas negociações para restaurar o acordo. “Precisamos ter cuidado para não deixá-los nos assustar”, disse Albright. O governo de Joe Biden não comentou os relatórios da AIEA. 

Na semana passada, questionado durante viagem à Alemanha, o secretário de Estado, Antony Blinken, reconheceu que o progresso do Irã foi tão rápido que restaurar o acordo pode em breve não fazer sentido. “Estamos nos aproximando do ponto em que um retorno ao antigo acordo não reproduz os benefícios que ele alcançou”, disse. 

As próximas semanas serão críticas. A abertura da Assembleia-Geral da ONU é tradicionalmente um momento de diplomacia de bastidores e espera-se que o novo governo iraniano, incluindo o novo chanceler, Hossein Amir Abdollahian, estejam em Nova York. 

Especialistas dizem que tanto o Irã quanto a Coreia do Norte, que disparou um novo míssil de cruzeiro no domingo, encaram o momento como um teste para Biden. “Há uma semelhança entre o que estamos vendo no Irã e na Coreia do Norte”, disse Rose Gottemoeller, ex-oficial de controle de armas dos EUA. “Os dois estão tentando colocar a mesa de negociações a seu favor.”

No domingo, autoridades iranianas chegaram a um acordo temporário com o diretor da AIEA, Rafael Grossi, para permitir que a agência reinicie o monitoramento do programa nuclear do país. Nos últimos meses, os inspetores enfrentaram dificuldade para entrar em algumas instalações, uma crescente fonte de preocupação para as autoridades americanas, que temem que o material nuclear possa ser desviado.

O acordo de 2015 limitou a quantidade total de urânio estocado e a produção de material enriquecido a 3,7% de pureza, um nível que pode ser usado em usinas nucleares, mas não como arma. No início, os iranianos aumentaram a produção para 20%, dizendo que precisavam de combustível para abastecer um reator de pesquisa para a produção de isótopos médicos.

Depois, o Irã foi mais longe. Em abril, começou a enriquecer urânio a 60%, depois que sua principal instalação nuclear foi sabotada – quase certamente por Israel. Por conta da física do enriquecimento nuclear, leva mais tempo para ir do urânio pouco enriquecido para 60% de pureza do que para dar o último salto para 90%, que é usado em armas nucleares. Isso torna o nível de 60% ameaçador.

O suprimento do Irã de 60% de urânio enriquecido ainda não é suficiente para uma arma. Mas o país passou o verão (Hemisfério Norte) instalando centrífugas mais novas e de alto desempenho que poderiam aumentar seu estoque. Mesmo assim, manter uma grande quantidade de urânio altamente enriquecido não é suficiente para produzir uma bomba, concordam os especialistas.

O combustível deve ser convertido em metal – uma etapa que os iranianos ainda não dominam – e depois em uma ogiva. Essas etapas levariam meses e talvez anos, dependendo da habilidade técnica. / NYT e WP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.