Irã triplicará processamento de urânio

TV estatal iraniana anuncia escalada sem precedentes no enriquecimento de material nuclear e transferência de reatores para bunker escondido no interior de montanhas; decisão seria resposta a novo tom adotado por agência atômica da ONU

, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2011 | 00h00

TEERÃ

O Irã anunciou ontem que triplicará sua produção de urânio enriquecido a 20%, processamento que passará a ser realizado em um bunker enterrado nas montanhas. Anunciada pela TV estatal iraniana, a decisão é uma resposta a declarações recentes do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o japonês Yukiya Amano, expressando "preocupação sobre as possíveis dimensões militares" do programa iraniano.

A possibilidade de o Irã transferir parte de seus reatores para um local sob forte proteção militar vinha sendo discutida por diplomatas estrangeiros e analistas. A decisão de escalar a produção de urânio enriquecido, porém, deve intensificar a tensão entre Teerã e potências ocidentais, que acusam os iranianos de estarem em busca da bomba nuclear. "Nossa resposta é a ampliação do trabalho na esfera de tecnologia nuclear", anunciou a repórteres Fereydoun Abbasi, principal cientista do programa atômico iraniano, após participar de uma reunião com o gabinete da República Islâmica.

Potências ocidentais, como EUA e França, qualificaram o anúncio do Irã de "provocação". "Estamos preocupados com as intenções anunciadas pelo Irã de continuar reforçando seu programa de enriquecimento (nuclear) e com a violação de suas obrigações internacionais", declarou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Tommy Vietor.

"Ele (o anúncio) reforça os temores da comunidade internacional em relação à intransigência do Irã e sua persistente violação do direito internacional", afirmou uma nota da chancelaria francesa.

A agência atômica da ONU, comandada por um conselho de 35 países, disse ter sido informada dos novos planos atômicos do Irã pela imprensa. "O Irã ainda não informou a agência sobre nenhuma decisão", afirmou Gill Tudor, porta-voz da AIEA.

Atualmente, o Irã processa urânio na usina de Natanz e a maior parte do material nuclear é enriquecida a 3,5% - taxa adequada para a geração de energia elétrica. O novo local onde funcionarão os principais reatores iranianos chama-se Fordo e fica ao lado de um complexo militar.

As instalações estão na região de Qom - um dos principais centros xiitas de estudos islâmicos - e foram mantidas em segredo até Estados Unidos e países europeus revelarem sua existência ao mundo, em 2009. As potências acusaram o Irã de construir Fordo para fins militares e, sob pressão, Teerã aceitou autorizar inspetores da AIEA a vistoriar o local.

Segundo um relatório da agência da ONU, Fordo deverá abrigar mais de 3 mil reatores, que entrarão em funcionamento "no verão" (entre junho e setembro). Atualmente não há nenhum reator no complexo.

Isótopos. Teerã já havia anunciado que pretende enriquecer urânio a 20% por meio de equipamentos mais modernos. O objetivo seria usar esse material nuclear para operar uma centrífuga de 44 anos - de fabricação americana - que produz isótopos para uso médico.

Para fabricar uma bomba, é preciso enriquecer urânio a níveis acima de 90%. Ontem o Institute for Science and International Security, um centro de pesquisa sobre política nuclear de Washington, afirmou que a implementação de Fordo poderia, dentro de um ano, permitir ao Irã produzir urânio para uma bomba, "caso decida fazê-lo".

Em reação às declarações do diretor-geral da agência da ONU, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, havia afirmado que o diplomata japonês "trabalha para Washington".

Há exatamente um ano, o Conselho de Segurança da ONU adotou a quarta resolução contra o programa iraniano. O organismo impôs várias restrições comerciais em "áreas sensíveis", como a nuclear e a militar do Irã. / REUTERS e WASHINGTON POST

PARA LEMBRAR

País passa por divisão política

A decisão do líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei, de intervir no gabinete ministerial do presidente Mahmoud Ahmadinejad evidenciou um racha entre os dois líderes iranianos. Khamenei reverteu em abril a decisão de Ahmadinejad de demitir o ministro da Inteligência Heydar Moslehi. Em protesto, Ahmadinejad ausentou-se de cerimônias oficiais por 11 dias.

De acordo com o deputado Morteza Agha-Tehrani, próximo a Ahmadinejad, o aiatolá chegou a dar um ultimato ao presidente: que ele aceitasse o ministro, ou renunciasse. Em maio o presidente nomeou ele mesmo ministro do Petróleo, um dos cargos mais importantes do país, que ocupa a presidência da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Pressionado, recuou.

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