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Irã une árabes e judeus

Apesar de um acordo entre Israel e palestinos parecer cada vez mais distante, nunca os dois lados estiveram tão sintonizados no esforço para afastar um perigo comum

BERNHARD ZAND, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Uma das opiniões que prevalecem no conflito do Oriente Médio é que os falcões de Israel são os únicos que conseguirão concluir um acordo de paz - os pacifistas são fracos demais para fazer com que esse acordo seja assinado. Uma segunda crença é que os líderes árabes precisam do conflito para justificar seus regimes cambaleantes e não democráticos. A terceira é que o inimigo do meu inimigo é meu amigo.

 

Veja no blog a íntegra dos artigos

Com essa farsa que Israel está agora representando com seu aliado, os Estados Unidos, o governo israelense colocou por terra todas as três ideias, o que é uma boa notícia.

Em primeiro lugar, o ministro do Interior israelense, Eli Yishai, colocou em posição ridícula o vice-presidente dos EUA e amigo de Israel, Joe Biden, que, na semana passada, se comprometeu de modo "absoluto, total e franco" com a segurança de Israel. Em resposta, Yishai aprovou a construção de mais 1.600 casas em áreas de Jerusalém Oriental reivindicadas pelos árabes.

O premiê Binyamin "Bibi" Netanyahu desculpou-se pelo momento infeliz do anúncio feito por Yishai e disse que não tinha nenhum conhecimento desse novo projeto. O primeiro-ministro desconhecendo um grande projeto de construção na cidade? O "incidente" foi prejudicial, declarou Netanyahu, nomeando uma comissão de funcionários de alto escalão para investigar os fatos "de modo a garantir que procedimentos sejam adotados para evitar esse tipo de incidente no futuro". Netanyahu também sugeriu uma possível punição draconiana do ministro - a saber, nenhuma. "Foi um incidente lamentável, que ocorreu inocentemente", imaginou Bibi, antes de a comissão iniciar a investigação.

A primeira opinião, portanto, foi desfeita: ninguém no governo israelense está atualmente interessado em conversações de paz - nem falcões nem pacifistas. Senão vejamos:

- Em janeiro, agentes do serviço secreto israelense, o Mossad, escolheram Dubai, entre todos os lugares, como cenário para o assassinato premeditado de um dos líderes do movimento palestino Hamas, Mahmoud al-Mabhouh. Dubai é um dos dois emirados do Golfo que ignoraram o boicote árabe e receberam um ministro israelense.

- Em fevereiro, Netanyahu declarou o túmulo de Raquel em Belém, controlado pelos palestinos, e de Abraão, em Hebron (que são sagrados para cristãos e muçulmanos), como "herança cultural sionista".

- Em março, uma semana antes de o ultraortodoxo ministro do Interior aprovar a construção de 1.600 casas, o ministro da Defesa, Ehud Barak, tinha autorizado a construção de 112 edifícios no assentamento de Beitar Ilit, na Cisjordânia, onde uma moratória de dez meses deveria estar em vigor.

A segunda crença também não se sustenta mais - aplicando-se, na verdade, o contrário a ela. Não são mais os líderes árabes que necessitam desse conflito para justificar seus regimes. É Bibi quem precisa dele para manter unido seu governo de direita e esquerda tão díspar. De fato, os regimes árabes hoje estão mais flexíveis como há muitos anos não se observava. Pouco antes da visita de Biden, eles convocaram unanimemente os palestinos para uma nova rodada de negociações com Israel.

Há uma boa razão, também: eles não são mais os únicos que lucram com essa guerra. Hoje, os árabes, como ocorre com os israelenses, temem os terroristas da Al-Qaeda e a liderança do Irã, com seu programa nuclear e sua retórica enfurecida.

Jamais, desde a época da criação de Israel, árabes e judeus estiveram tão unidos como estão agora ante a ameaça iraniana. O chanceler da Arábia Saudita chegou mesmo a falar abertamente a sua colega americana, Hillary Clinton, sobre a necessidade potencial de um ataque militar contra o Irã. Conforme apurou a revista Der Spiegel, agências de inteligência ocidentais acreditam que os sauditas teriam aberto seu espaço aéreo a caças israelenses para um ataque ao Irã - ao contrário dos americanos, que não autorizaram que esses caças voassem sobre o Iraque, com boas razões.

Por mais alarmante que seja o cenário, é preciso uma obstinação e um autismo político excepcionais para ignorar esta constelação e, diante disso, menosprezar a terceira das três opiniões. O que leva a uma única conclusão: Israel está satisfeito com a atual situação no Oriente Médio. É difícil acreditar, diante das mortes e do sofrimento que esse conflito tem causado.

É verdade que o Hamas não está lançando seus foguetes no momento. Apesar de um grupo palestino ter disparado foguetes contra Israel esta semana, o último ataque suicida do Hamas contra Israel ocorreu há quase dois anos. Mas alguém acredita seriamente que a situação vai permanecer calma? Em protesto contra a construção de novos assentamentos, o Hamas convocou um "Dia da Fúria". Centenas de palestinos protestaram na terça-feira em Jerusalém e entraram em choque com forças de segurança.

Os assentamentos em Jerusalém Oriental não começaram na semana passada. Eles vêm se ampliando, como Bibi alardeou na quarta-feira, nos últimos 42 anos, e os israelenses colocaram em ridículo todos os que querem ajudar judeus e árabes a encontrar a paz. Há 20 anos, o então secretário de Estado americano, James Baker, estava na mesma posição de Hillary Clinton e o seu atual e frustrado negociador para o Oriente Médio, George Mitchell. Na ocasião, ele deu aos israelenses o número da telefonista da Casa Branca e disse a eles: "Telefonem quando pensarem seriamente sobre a paz." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

CORRESPONDENTE DA REVISTA "DER SPIEGEL" NO ORIENTE MÉDIO

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