Irã usa novela para fazer propaganda

Minissérie de TV com história de amor entre palestino e judia na 2.ª Guerra traz embutida mensagem anti-sionista

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, investe na criação de um novo - e mais moderno - aparato estatal nas áreas de cultura e entretenimento, com a produção própria de minisséries de TV, um canal de notícias em inglês com transmissão para o exterior e websites oficiais que difundem propaganda islâmica. Ao mesmo tempo, tem intensificado o controle do conteúdo das TVs e rádios e a censura sobre jornais, internet, livros, música e cinema. Com o monopólio da produção televisiva e orçamento cinco vezes maior que o do Ministério da Cultura, a gigante estatal de radiodifusão Irib, diretamente subordinada ao líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, lançou minisséries nacionais na linha de sucessos americanos como Friends. Direcionadas aos jovens, exibem cenas antes impensadas no Irã, como mulheres européias sem o véu islâmico. Além de histórias de amor e amizade, no entanto, carregam mensagens políticas. A minissérie Zero Grau retrata a história de amor entre um palestino funcionário da Embaixada do Irã em Paris e uma francesa judia a quem ele ajuda a fugir, durante a 2ª Guerra Mundial. Enquanto mostra o sofrimento de judeus no Holocausto, que Ahmadinejad chegou a colocar em dúvida, a série retrata o tio da protagonista como um judeu brutal, tirano e manipulador, de fortes ligações com o sionismo. "(A série) tem uma mensagem política subliminar muito clara, a distinção entre judeus e sionistas, e ajuda a reforçar o anti-sionismo", disse ao Estado o vice-diretor do Departamento de Oriente Médio da organização Human Rights Watch, Joe Storck. Em julho, Ahmadinejad inaugurou a emissora estatal via satélite Press TV, com notícias 24 horas em inglês. O canal tem 50% de investimento privado, mas seu conteúdo é totalmente controlado pelo Estado. No discurso de inauguração da emissora, Ahmadinejad fixou como uma de suas missões "expor as notícias propagandistas dos inimigos". A Press TV também conta com um site de notícias em tempo real, alimentado por quase 400 jornalistas, entre eles 26 correspondentes internacionais, em cidades como Washington, Nova York, Londres, Beirute e Damasco. Internamente, o governo controla todo o conteúdo de radiodifusão e tenta bloquear o acesso a canais como BBC e CNN. Antenas parabólicas são proibidas desde 1994. O Conselho Supremo da Revolução Cultural, subordinado a Khamenei e responsável por todas as políticas culturais e de educação, ordenou a estatização das empresas de acesso à internet e em 2003 passou a filtrar os sites - estima-se que 10 milhões sejam bloqueados. Em janeiro, o Parlamento tornou obrigatório o registro de blogueiros e donos de websites. Em paralelo, funcionários do governo - até Ahmadinejad - criaram sites próprios.Para Stork, a estratégia de transmitir mensagens políticas por meios destinados a jovens é uma indicação de que o regime começa a reconhecer que precisa dessa população. "Essa nova geração não viveu o período do xá Reza Pahlevi, não guarda memórias da Revolução Islâmica e não se identifica com seus ideais", disse ao Estado o advogado iraniano Payam Akhavan, especialista em direitos humanos e multiculturalismo. "São jovens modernos, grudados nos canais internacionais via satélite e viciados em Internet. Sabem o que acontece em outras partes do mundo e têm os mesmos objetivos de democracia, liberdade e prosperidade."PROIBIÇÕESAo mesmo tempo, o governo tenta limitar o acesso a produções do Ocidente. No início do ano, o ministro da Cultura e Orientação Islâmica, Hossein Saffar Harandi, proibiu a reimpressão e venda de clássicos da literatura ocidental. Já o Conselho baniu das rádios e TVs músicas consideradas "indecentes". A importação de CDs já era proibida. Também está em discussão um documento do Conselho propondo novas regras para o cinema nacional, a ser votadas pelo Parlamento em 2008. Entre os tópicos está o "apoio à identidade nacional e religiosa como estratégia para evitar a invasão cultural"."O principal objetivo da política do Irã em relação ao cinema não tem sido artístico ou econômico, mas o resultado de um projeto ideológico", diz a pesquisadora brasileira Alessandra Meleiros, autora do livro O Novo Cinema Iraniano, que viveu seis meses em Teerã. "Na produção audiovisual, a propaganda política é crescente." "Não podemos dizer que não há censura", disse ao Estado o cineasta Mohammad Afarideh, diretor do Centro de Documentário e Filmes Experimentais, criado para estimular a produção de jovens iranianos. "Mas em qualquer sociedade há regras a ser seguidas." Para analistas, Ahmadinejad tenta atrair os jovens em torno da mesma atmosfera ultraconservadora da era pós-revolução. "Ele sabe que, no fim, poderá contar com o nacionalismo persa. Por isso, aposta no programa nuclear. Mas voltar no tempo é impossível. Essa nova geração não quer mais isso", disse o analista político Mohammad Soultanifar, da Universidade de Azad.

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