Presidência do Irã
Presidência do Irã

Irã volta a enriquecer urânio acima do limite permitido por acordo; EUA falam em 'extorsão nuclear'

Porta-voz do governo afirmou à agência estatal que cientistas começaram processo de enriquecimento após notificarem a Agência Internacional de Energia Atômica

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 08h49
Atualizado 04 de janeiro de 2021 | 19h33

TEERÃ - O Irã reiniciou o processo de enriquecimento de urânio com um nível de pureza de 20% em uma instalação subterrânea, descumprindo os termos do Acordo Nuclear de 2015, assumido com os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, além da Alemanha. Em resposta, Washington acusou o país de fazer 'extorsão nuclear'. 

O anúncio foi feito pelo porta-voz do governo, Ali Rabie, à mídia estatal iraniana. De acordo com Rabie, o presidente Hassan Rohani deu a ordem para a mudança nas instalações de Fordo. Protegido pelas montanhas, Fordo é cercado por armas antiaéreas e outras fortificações. É do tamanho de um campo de futebol, grande o suficiente para abrigar 3 mil centrífugas.

Ainda de acordo com o porta-voz, os cientistas começaram o processo de enriquecimento na segunda-feira à tarde, após notificarem a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de vigilância nuclear das Nações Unidas.

A decisão do Irã vem depois da aprovação no Parlamento de um projeto de lei para aumentar o programa nuclear como forma de pressionar a Europa a aliviar sanções econômicas. A medida também é vista como uma forma de pressionar o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, antes mesmo de sua posse. Biden, um democrata, já disse estar disposto a entrar novamente no acordo nuclear, do qual os EUA se retiraram em 2018, na gestão de Donald Trump

O governo do presidente republicano denunciou que o plano do Irã de intensificar o enriquecimento de urânio é uma "extorsão nuclear". "O Irã enriquecendo urânio a 20% em (a usina subterrânea de) Fordo é uma tentativa clara de incrementar sua campanha de extorsão nuclear, uma tentativa que continuará fracassando", afirmou um porta-voz do Departamento de Estado.

 

O que é o acordo nuclear de 2015?

O acordo nuclear é um pacto feito entre o Irã e os países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia. A Alemanha também faz parte das negociações, no chamado grupo P5+1. As conversações foram mediadas pela União Europeia. 

O documento tem como objetivo geral impedir a produção de armas nucleares pelo Irã. Em troca, as sanções internacionais impostas ao Irã pelas potências - como EUA e países europeus - são gradualmente rompidas, em especial relacionadas à exportação de petróleo do país e movimentações no sistema bancário internacional.

Quais são os pontos-chave do acordo?

As principais demandas do acordo são relacionadas à quantidade produzida e ao nível de enriquecimento do urânio. Quanto maior o enriquecimento, maior sua capacidade explosiva.

Estoque: Ficou acordado que o Irã só iria produzir a quantia máxima de 300 quilos de urânio enriquecido, durante um período de 15 anos. Tal quantia estabelecida para estoque equivale à uma redução de 98% em comparação ao que era fabricado antes.

Enriquecimento: O nível de enriquecimento de urânio também foi limitado para 3,67%, considerado o suficiente para produção de energia nuclear, como defendido pelo Irã. No momento da assinatura do acordo, o nível de enriquecimento estava em 20%, definido para produção de substâncias medicinais. O necessário para a produção de uma bomba atômica é superior a 90%.

Número de centrífugas: Também foi estabelecida a redução em dois terços do número de centrífugas de enriquecimento de urânio em atividade, totalizando pouco mais de 5 mil. O Irã se comprometeu a não ultrapassar esse número em um período de 10 anos.

Fiscalização: Também ficou estabelecido que o Irã deveria permitir acesso da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU, às centrífugas e ao estoque, para certificar à comunidade internacional de que o país não estaria quebrando as regras do acordo nuclear./ WP e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.