Irã vota hoje com chamado ao boicote

Tido como moderado, Rohani só terá chances se jovens decidirem ir às urnas; conservadores não conseguem se unir em torno de um candidato

TEERÃ, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h02

Os iranianos vão hoje às urnas escolher seu próximo presidente entre chamados da oposição a um boicote e a divisão do voto conservador por vários candidatos. Nos últimos dias, o clérigo moderado Hassan Rohani despontou como o único nome apoiado por líderes reformistas, mas suas chances estariam ameaçadas caso o eleitorado jovem - que, em 2009, saiu em massa às ruas para denunciar uma suposta fraude - deixe de votar.

Ontem o Google anunciou que "dezenas de milhares" de contas de iranianos foram alvo de ataques nos últimos dias, na reta final da campanha. Segundo a empresa americana, a ofensiva online tem "motivações políticas".

Seis candidatos disputam a sucessão de Mahmoud Ahmadinejad na presidência da república islâmica. Se nenhum conseguir mais de 50% dos votos válidos, a disputa se arrastará para o segundo turno. A Justiça eleitoral iraniana, leal ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, promete divulgar amanhã os resultados da votação e analistas consideram altamente improvável que, desta vez, ocorram protestos semelhantes aos que varreram o país na última eleição presidencial.

Divisão. O campo conservador iraniano, ligado a Khamenei, foi incapaz de se unir em torno de um só nome, o que pode aumentar as chances de Rohani chegar ao segundo turno. O voto do grupo deve se dispersar entre Saeed Jalili, diplomata e secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Akbar Velayati, assessor de política internacional do líder supremo, e Mohamed Baqer Qalibaf, que foi prefeito de Teerã e comandou a Guarda Revolucionária, a força pretoriana da república islâmica.

O regime iraniano é comandado pelo líder supremo e o presidente é incapaz de fazer mudanças bruscas em temas como política externa e economia. Assim, não há possibilidade de o Irã dar um guinada em questões como as negociações do programa nuclear ou o apoio ao regime sírio de Bashar Assad.

No entanto, o presidente é capaz de influenciar, indiretamente, pontos-chave da política iraniana e todos, à exceção de Jalili, defenderam uma posição menos intransigente nas negociações com as grandes potências.

Distúrbios. Analistas apontam que o líder supremo buscou reduzir o risco de distúrbios à exemplo do que ocorreu em 2009. Os candidatos que mais se opunham a Khamenei - o ex-presidente reformista Akbar Hashemi Rafsanjani e Esfandiar Rahim Mashaei, braço direito de Ahmadinejad - nem sequer puderam entrar na disputa. As campanhas foram encerradas na terça-feira à noite, sem incidentes, e até agora a estratégia de Khamenei parece estar funcionando.

No entanto, o clérigo moderado Rohani conseguiu reunir multidões em seus últimos comícios. Na reta final, o candidato recebeu apoio de Rafsanjani e do também ex-presidente reformista Mohamed Khatami.

No último debate da campanha, há uma semana, Jalili adotou um tom ultraconservador, defendendo que o lugar das mulheres na república islâmica é no papel de donas de casa e guardiãs do casamento. Rohani, do outro lado, defendeu uma maior presença feminina nas atividades do país e, para isso, prometeu criar um Ministério da Mulher.

Os seis candidatos têm em comum um ponto importante: o Irã não deve parar de enriquecer urânio. Eles discordam, no entanto, sobre como o país deve dialogar com as grandes potências sobre o assunto. Jalili é o mais radical, defendendo o confronto com o Ocidente.

Ahmadinejad fez ontem um apelo para que os iranianos compareçam às urnas. No poder desde 2005, ele não pode mais concorrer. Os dois candidatos reformistas que o desafiaram em 2009, Mir Hussein Mousavi e Mehdi Karroubi, estão ainda em prisão domiciliar. / REUTERS, NYT e AP

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