Iraniana faz confissões sob tortura, diz Anistia

Condenada à morte por apedrejamento, Sakineh Ashtiani admite diante dos filhos ter assassinado o marido, um dia depois de fazê-lo na televisão

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Sessões de tortura e isolamento levaram a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, sentenciada à morte por apedrejamento, a confessar adultério e participação no assassinato de seu marido, segundo a Anistia Internacional e seu novo advogado, Javid Kian.

Sakineh, que está na prisão de Tabriz, admitiu ontem os dois crimes diante dos filhos, observada de perto por policiais. O mais jovem, Saide, desesperou-se após a confissão, um sinal de que a execução é iminente. Na noite de quarta-feira, a TV estatal iraniana transmitiu uma entrevista em que Sakineh também reconhecia ter ajudado a assassinar seu marido.

"Ela nos disse que matou nosso pai e cometeu adultério, mas os gestos dela eram de alguém que não acreditava em uma só palavra do que estava dizendo", contou Sajad, o outro filho, ao Estado. "Víamos nos olhos dela que ela queria nos dizer para não acreditar no que estava dizendo." A conversa durou dez minutos e a família esteve separada por um vidro.

A Anistia Internacional acusou o governo iraniano de ter "orquestrado a confissão" para usá-la na Corte Suprema. O tribunal deve se reunir amanhã para determinar a pena. Fontes próximas ao processo dizem que, se a execução for determinada, a Justiça deve esperar até o fim do Ramadã - meados de setembro - para cumprir a ordem.

Sajad afirmou que a mãe está "muito assustada". "Foi torturada fisicamente", disse. "Meu irmão chorou a noite toda após vê-la na TV. Obviamente, não acreditamos nessa versão. Mas sabemos que, ao ser obrigada a dizer isso, está nos indicando que será executada."

A iraniana era defendida pelo ativista Mohammed Mostafaei, que fugiu do Irã e pediu asilo à Noruega. Há dez dias, Kian, novo advogado, submeteu ao tribunal um recurso de 35 páginas. A iraniana foi condenada em 2006 por "relações ilícitas" e recebeu pena de 99 chibatadas. Seu processo foi reaberto e ela foi, então, condenada por adultério e à morte por apedrejamento. Na semana passada, o governo disse que ela é culpada também de assassinato, o que a levaria à morte na forca. Pelo menos três outras iranianas condenadas à morte por apedrejamento tiveram as sentenças revistas para a forca recentemente. "É uma tentativa de evitar a pressão internacional", disse Kian.

Resposta. Ontem, o embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, disse à Agência Brasil que o Itamaraty não fez uma oferta formal de asilo a Sakineh. Um representante do Itamaraty afirmara, na terça-feira, que a proposta havia sido feita formalmente após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter se disposto a recebê-la no Brasil, "se estivesse causando problemas no Irã". O chanceler Celso Amorim respondeu ontem que não ficará "fazendo polêmica com o embaixador do Irã". / COLABOROU REJANE LIMA

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