Iraniana torna-se salvadora de mentes

Com livros coletados ou doados, Gohari transformou sua sala em biblioteca e mudou a vida de muitas mulheres

Borzou Daragahi, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

Aos seus olhos, elas são todas filhas e irmãs. A órfã de 18 anos já casada e mãe, mas com fome de aprender. O par de colegiais tímidas, nervosas no início, mas logo remexendo ansiosamente nas estantes repletas de livros. A matrona dona de casa, insegura e inculta, mas descobrindo o mundo além das favelas do sul de Teerã com a leitura de Fiodor Dostoievski e Jean-Paul Sartre. Para as mulheres de sua vizinhança, Nazamin Gohari se tornou uma salvadora de mentes.Alguns anos atrás, a cabeleireira meio período que virou ativista comunitária transformou seu acanhado apartamento numa biblioteca para mulheres, coletando livros usados para encher as estantes improvisadas em sua sala de visitas. Inicialmente, ela as abasteceu de romances baratos, poesia, títulos de auto-ajuda e faça você mesmo. Mas a demanda por livros de culinária e riscos para bordados acabou dando lugar a pedidos de livros de preparação para a universidade e literatura. As garotas que folheavam livros infantis ilustrados floresceram em mulheres voluntariosas ávidas para chegar à educação superior.Gohari recorda uma moça de 17 anos chamada Sedigheh, que veio até ela chorando, perturbada porque seus pais não podiam pagar o material escolar de preparação para o vestibular. Uma pontuação alta colocaria a adolescente brilhante no caminho de um futuro glorioso, incluindo até uma faculdade de medicina. Não fazer o exame do vestibular significaria uma vida mais simples, talvez casada com um homem com o dobro de sua idade, cuidando de bebês e da casa.Para Gohari, ajudar a adolescente tornou-se uma missão - uma de muitas. Ela vasculhou a cidade atrás de livros didáticos, relativamente baratos para os padrões ocidentais, mas uma fortuna para iranianos pobres. A mulher estendeu a mão para a jovem."Ela estava envergonhada por não poder comprar os livros", contou Gohari. "Então eu lhe disse que estudasse aqui."Gohari, uma mulher de óculos perto dos 60 anos, se deleita com as mulheres em seu empobrecido bairro, narrando os detalhes de seus triunfos e padecimentos. Ela salpica suas frases com agradecimentos singelos a Deus enquanto fala cheia de entusiasmo sobre suas aventuras como ativista comunitária, preenchendo um vácuo social e mesmo político criado pela rápida transição do Irã de nação principalmente rural, onde as pessoas cuidavam das necessidades de vizinhos, à sociedade urbana impessoal de hoje, onde a maioria se vira como pode.Ignoradas pela visão pública, as mulheres iranianas transpuseram discretamente restrições de política, religião e tradição ao longo das três últimas décadas para fortalecer sua condição e alcançar vários cargos de poder.Embora os clérigos conservadores, que assumiram o Irã após a deposição do xá Reza Pahlevi em 1979, esperassem eternizar os papéis tradicionais das mulheres, eles criaram uma dinâmica que as libertou. Quando lançaram medidas contra o analfabetismo e construíram centenas de faculdades pelo país, a taxa de alfabetização do país cresceu de menos de 50% nos anos 70 para 85% hoje.Em vez de criar uma poderosa nova geração islâmica, eles impeliram o país para a era moderna, elevando as ambições e compreensão de jovens iranianos, a metade mulheres, que começaram a questionar as regras e contrições da sociedade."Uma das ironias da revolução é que a consciência de si das mulheres ficou muito mais forte", disse Pardis Mahdavi, um antropólogo iraniano-americano que leciona no Pomona College, na Califórnia, e escreveu em 2008 o livro Passionate Uprisings (Levantes Apaixonados, numa tradução livre) sobre a evolução de sexo e gênero no Irã. "A revolução originou um movimento feminino mais forte", acrescentou o antropólogo.

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