Iraniano diz que CIA tentou comprá-lo

Shahram Amiri volta a Teerã e reitera que foi sequestrado; para especialista, Irã usou a família do cientista para conseguir repatriá-lo

Denise Chrispim Marin, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2010 | 00h00

O cientista iraniano Shahram Amiri, voltou ontem a Teerã, quase um ano depois de seu desaparecimento. Em entrevista coletiva, Amiri reiterou que foi sequestrado no ano passado por agentes americanos e sauditas quando fazia peregrinação à cidade sagrada de Medina. Ele disse que agentes da CIA tentaram convencê-lo a fazer propaganda contra o Irã e lhe ofereceram US$ 50 milhões para permanecer nos EUA.

Para Clare Lopez, especialista em políticas de segurança e de inteligência do Centro de Segurança Nacional, de Washington, Amiri "está acabado, mas pelo menos pode ter conseguido salvar a família".

"Provavelmente, ele será preso, torturado e executado", afirmou Lopez ao Estado. Clare deixou claro que não recebera informação oficial sobre o caso. Mas, com base em sua experiência de 20 anos na área de operações da CIA, mostrou-se segura para afirmar que Amiri somente se entregou à sessão iraniana da Embaixada do Paquistão em Washington, na segunda-feira, depois de ser informado que sua família, que permaneceu no Irã, estaria em perigo. Esse método de "dissuasão", afirma a especialista, é aplicado com frequência pelo Ministério de Informação e Segurança Nacional do Irã a dissidentes e desertores do regime.

Ela acredita que Amiri foi recrutado por agentes da CIA dentro do chamado "Brain Drain" (captação de cérebros) ? cujo objetivo é encorajar cientistas e engenheiros de países "inimigos" a desertar. As informações disponíveis mostram que ele não estava no centro das operações da Agência Atômica Iraniana. Mas, como professor da Universidade Malek-Ashtar de Tecnologia, em Isfahan, Amiri teria atuado em áreas marginais do programa. A universidade é ligada à Guarda Revolucionária iraniana, entidade que controla o programa nuclear do país.

O erro maior, em sua opinião, foi a revelação da presença de Amiri nos EUA. Em junho, após a circulação na internet de um vídeo no qual ele dizia ter sido sequestrado, outra gravação surgiu no YouTube, na qual Amiri afirma que estava nos EUA por vontade própria e desautorizava a gravação anterior. A partir daí, agentes iranianos souberam exatamente como agir para levá-lo de volta ao Irã, diz a especialista.

Segundo Clare, entre tantas brechas na história, uma dificilmente será respondida: se Amiri era um agente duplo. "Na área de inteligência, nunca se sabe se uma pessoa é genuinamente uma desertora e se ela fornece informação 100% certa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.