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Iranianos e cubanos

Embargo e pressão não são mais a melhor resposta para dobrar regimes de Irã e Cuba

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

As duas grandes realizações da política externa de Barack Obama foram a reaproximação com Cuba e o acordo nuclear com o Irã. Seu sucessor, Donald Trump, está trabalhando para desfazer ambas, como parte de uma obsessão em apagar o legado de Obama. Mas, no mundo real, isso é o que menos importa: a luta pela democracia nesses dois países está em jogo.

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A chegada ao poder de Miguel Díaz-Canel coloca Cuba em uma encruzilhada. O mais provável é que ele leve adiante as reformas econômicas lançadas por seu antecessor, Raúl Castro, até para garantir a sobrevida do regime. Elas trouxeram certa prosperidade aos cubanos, como pude constatar em dezembro de 2016, na cobertura do funeral de Fidel Castro.

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O governo liberou e formalizou uma série de atividades autônomas, antes ilegais. Muitos cubanos trocaram seus empregos de no máximo US$ 40 por mês nas estatais por pequenos serviços de consertos domésticos, venda de comida e hospedagem em suas casas, multiplicando sua renda.

Díaz-Canel deve consolidar essas conquistas na área econômica. Uma liberalização política, porém, não parece estar no horizonte. É aqui que os EUA poderiam desempenhar um papel mais construtivo. Seis décadas de embargo econômico só serviram para dar ao regime cubano uma justificativa para sua tirania.

A reabertura da embaixada dos EUA em Havana e a facilitação das viagens para a ilha, promovidas por Obama, estavam abrindo caminho para uma intensificação dos contatos e uma presença americana. Isso ajudaria os americanos a exercer uma influência mais inteligente. Em vez disso, Trump congelou as relações e entregou sua política sobre Cuba para o senador Marco Rubio, da Flórida. Embora jovem, Rubio tem ideias velhas sobre Cuba, porque elas lhe rendem votos. É mais do mesmo: embargo e pressão. Díaz-Canel não terá incentivos externos para realizar reformas políticas. E os sofridos ativistas cubanos por direitos humanos continuarão sozinhos em sua arriscada cruzada.

Algo semelhante acontece no Irã. Tudo indica que Trump suspenderá no dia 12 de maio o acordo nuclear, retomando as sanções comerciais contra o petróleo iraniano. Isso não abrange apenas as importações americanas: os EUA se recusam a fazer negócios com quem viola suas sanções.

Em maio do ano passado, os iranianos reelegeram o presidente moderado Hassan Rohani, cuja chegada ao cargo em 2013 tornara possível o acordo nuclear. O adversário dele, Ebrahim Raisi, defendia a retomada do programa nuclear. Mesmo com a hostilidade do novo presidente americano, os iranianos preferiram a moderação ao nacionalismo.

Estive no Irã na semana passada. Os iranianos estão muito cansados do regime e demonstram isso de todas as formas. A repressão às manifestações iniciadas em dezembro deixou ao menos 25 mortos, centenas de feridos e milhares de presos.

Diante da repressão brutal do regime, os iranianos têm desenvolvido novas formas de protestar. Uma delas é frequentar os locais associados ao passado persa, anterior ao islamismo ou à revolução de 1979. No fim de semana passado, em vez de ir às mesquitas de Shiraz celebrar a Festa da Ascensão do profeta Maomé, muitos foram ao Túmulo de Hafez, poeta persa do século 14, que escreveu sobre o amor, os prazeres do vinho e a hipocrisia na religião. 

A repulsa ao regime teocrático está contaminando o Islã, e empurrando parte dos iranianos para o ateísmo ou para o zoroastrismo, a religião anterior à conquista árabe-muçulmana. Eles também têm desenvolvido aplicativos imunes à censura e aos bloqueios do regime, para impulsionar a defesa dos direitos humanos. Mas a ruptura do acordo e a retomada das sanções, em vez de intimidar, podem fortalecer os conservadores, em razão do sentimento da ameaça externa. Os EUA não têm o poder de transformar ditaduras em democracias. Mas deveriam ao menos não atrapalhar aqueles que estão lutando corajosamente por isso.

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