Iranianos em busca da 'Renascença persa'

Autores da HQ 'O Paraíso de Zahra'contam sua história sobre as manifestações de 2009, em Teerã

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h03

Amordaçados por um regime que impõe prisão, tortura e morte a quem divulga fatos ou expressa opiniões em desacordo com a determinação oficial, iranianos dissidentes buscam meios de denunciar abusos em nome do Estado desde que a Revolução Islâmica outorgou aos aiatolás o comando de seu país, em 1979. De maneira ousada e criativa, "Amir" e "Khalil" - quadrinistas de origem iraniana que não se identificam para evitar represálias - contaram sua história sobre os últimos protestos contra o governo de Teerã, ocorridos em 2009, na graphic novel O Paraíso de Zahra, lançada em versão impressa recentemente em português.

Os autores consideram sua obra uma "continuação" da HQ Persépolis, publicada em 2000 pela iraniana Marjane Satrapi e transformada em animação sete anos depois. "Nós documentamos o cotidiano e o sofrimento do povo persa e também seu amor, bom humor e genialidade. Somos riachos que fluem da mesma fonte", disse ao Estado Khalil, que ilustrou a obra já traduzida a 12 idiomas desde sua publicação em formato digital, em fevereiro de 2010.

O trio iraniano segue uma linguagem inaugurada por Will Eisner em 1978 com Um Contrato com Deus, obra em que, com base em experiências pessoais, o autor interpreta seu judaísmo e a religiosidade de seu entorno, no primeiro livro definido como uma graphic novel na história dos quadrinhos.

Além do papel fundador no gênero, a realidade ainda permeia - como inspiração e enredo - muitas das mais importantes dessas longas e elaboradas HQs. Art Spiegelman, em Maus, foi coroado com um Pulitzer ao contar como seu pai sobreviveu ao Holocausto. E Joe Sacco, ao registrar suas voltas e conversas nos territórios ocupados por Israel e nos Bálcãs em desenhos e palavras, incorporou o jornalismo engajado ao universo dos quadrinhos.

"Esses importantes autores criaram um novo gênero, do qual O Paraíso de Zahra definitivamente faz parte. Todos nós estamos documentando a História em um meio que anteriormente era mais orientado ao entretenimento. Mas é importante nunca perder a habilidade de entreter enquanto narramos, pois, se isso ocorre, as HQs perdem sua magia", explicou Khalil.

O Paraíso de Zahra conta a história de uma mãe em busca do filho desaparecido durante os protestos de junho de 2009, contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Sua procura transita por vários setores sociais do Irã: do necrotério ao presídio, passando pela influência da alta sociedade e a vida íntima de um agente "revolucionário" e sua segunda mulher - no Irã, "casamentos temporários" entre um homem, comprometido ou não, e uma mulher solteira são legais segundo a determinação do "contrato". Dessa relação peculiar à visão ocidental do amor, vem a solução do desaparecimento de Mehdi, o filho de Zahra. Apenas com o auxílio de hackers e suas novas tecnologias o mistério acaba resolvido.

A obra de Amir e Khalil, porém, não trata apenas de passar uma mensagem. Uma das táticas dos autores é despertar a curiosidade do leitor sobre o cotidiano do país. "Nosso objetivo foi criar um espelho que pudesse celebrar a dignidade e a humanidade do povo iraniano."

Os autores acreditam que o junho de 2009 iraniano mostrou o caminho à Primavera Árabe, que por sua vez deverá inspirar uma "Renascença Persa". Mas como seria possível mudar a realidade iraniana? "Com amor, alegria, unidade, riso, bondade, claridade e coragem", responderam Amir e Khalil.

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