Iranianos também têm uma versão do Tea Party

As faixas que pipocaram em Teerã tinham um propósito: sabotar as negociações nucleares entre o Irã e o Ocidente e arruinar as chances de uma futura reconciliação com os EUA. Uma delas exibia um negociador iraniano, pretendendo representar o chanceler Mohamed Javad Zarif, sentado diante de um americano que, por baixo da mesa e fora das vistas, tinha um revólver no coldre e uma calça de camuflagem militar.

ANÁLISE: Scott Peterson / CS Monitor, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h09

As palavras acusavam os EUA de trapaça, em um ataque velado aos iranianos dispostos a negociar. As faixas - removidas alguns dias depois - são um lembrete de que o Irã também tem seus "estraga-prazeres", afirmou Zarif alguns dias mais tarde. "Vocês disseram que nós não temos um Tea Party? Gostaria que tivessem razão", disse ele.

Um Tea Party no Irã? Desde a Revolução Islâmica, um grupo de iranianos de linha dura prevaleceu sobre rivais políticos, às vezes pondo em risco políticas nacionais mais amplas para seu próprio benefício. Para alguns iranianos, isso faz deles uma comparação perfeita com o Tea Party dos EUA, que liderou recentemente a paralisia do governo americano. Alguns dias depois de as faixas serem retiradas, os iranianos da linha dura reuniram-se na antiga Embaixada dos EUA em Teerã para gritar "morte à América" e queimar bandeiras americanas, marcando o aniversário da tomada da missão diplomática, em 1979.

Uma autoridade americana de alto escalão, falando dias depois da retirada das mensagens, disse que compreendia a dinâmica. "O Irã é uma cultura com muitos elementos, como a nossa. Temos a linha dura em nossa cultura - provavelmente não tão dura quanto a dos iranianos", disse a fonte, falando às vésperas das negociações nucleares em Genebra.

No Irã, o Tea Party local assume duas formas. A política, com grupos que aderem ao antiamericanismo dos primeiros anos da Revolução Iraniana e para quem "acordo" é uma palavra suja, é uma delas. Eles lutam com palavras, do púlpito das orações de sexta-feira, pela ondas da TV e a imprensa.

Aí se pode contar o jornal Kayhan, que reportou mentirosamente que Zarif dissera em privado que o telefonema histórico do presidente Hassan Rohani a Barack Obama era um "erro". A manchete mentirosa bastou para enviar o chanceler ao hospital com espasmos nas costas e na perna. Zarif deixou claro que considerou a afirmação deliberada. "Foi um dia amargo, mas esclarecedor para mim", ele escreveu no Facebook. "Aprendi que tudo que eu quero dizer, devo dizer publicamente."

Há ainda outra forma de Tea Party no Irã, cujas ações o colocam muito além de qualquer comparação com os radicais americanos. Grupos de pressão vigilantes, que tradicionalmente usam de violência, tiveram início no século 19 como "aplicadores" dos decretos religiosos de imãs em aldeias iranianas. Eles foram usados mais tarde pelo xá pró-Ocidente até sua deposição, em 1979. Em um caso, ele criou uma força de vigilantes com policiais à paisana, que atacava comícios organizados por estudantes e outros "dissidentes". As táticas violentas evoluíram depois da revolução e os grupos de vigilantes se tornaram instrumentais.

Alguns acreditam que sua influência ajudou a destruir a presidência de Mohamed Khatami, que tinha um apoio popular sem precedente e a mão estendida para o EUA.

 

(Tradução de Celso Paciornik)

 

*É jornalista

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