AP Photo/Vahid Salemi
AP Photo/Vahid Salemi

Iranianos temem por futuro diante de retomada das sanções dos EUA

Restabelecimento das restrições dos EUA ao Irã causa pânico entre aqueles que viram economia melhorar após acordo firmado em 2015

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 06h00

TEERÃ - As sanções internacionais dos Estados Unidos ao Irã voltaram a valer nesta segunda-feira, 5, e já causam temor entre os iranianos que viram a economia do país melhorar após o acordo nuclear entre seis países, firmado em 2015. As medidas haviam sido suspensas pelo tratado coordenado pelo governo de Barack Obama. Em maio, porém, o presidente Donald Trump retirou o país do pacto.

“Já sentimos o efeito da decisão. As minhas prateleiras estão vazias, meus depósitos estão vazios e logo vou ter que fechar. Isso foi a minha vida. Não irei sobreviver muito mais depois que fechar as portas”, afirmou a AFP Heidar Fekri, de 70 anos, que vende equipamentos industriais em sua pequena loja no bazar de Teerã desde antes da revolução.

A economia iraniana já tinha muitos problemas antes de o presidente americano, Donald Trump, decidir, em maio, abandonar o acordo nuclear de 2015 e impor novamente sanções "devastadoras". E essa decisão agravou a queda da divisa iraniana, que sofreu uma baixa de 70% no ano passado e provocou o êxodo de empresas estrangeiras.

A antecipação ao retorno do embargo ao petróleo - previsto para segunda-feira (5) - já afundou o país em uma recessão e, no ano que vem, provocará uma queda de 3,6% da economia iraniana, segundo o Fundo Monetário Internacional.

Para Fekri, que trouxe bombas de gasolina e furadeiras da Europa por 47 anos, a incerteza se traduz em um ano sem importar nada. "As vendas caíram 90% em comparação há seis meses. Todo o bazar está sofrendo", disse à AFP.

Quase todos os produtos no Irã, desde remédios até peças de reposição de aeronaves, estão ligados à cadeia mundial de fornecimento e, por isso, a queda da divisa e o novo isolamento ameaçam toda a sociedade. O governo se viu forçado a entregar cestas de alimentos para cerca de metade dos lares à medida que a inflação disparava.

Para a classe média, o pior golpe talvez seja o psicológico, já que a esperança surgida com o acordo nuclear se esvai. "Ninguém sabe o que realmente os americanos querem. Fizemos tudo o que queriam e não foi suficiente. Parece assédio", considera Sam Cordier, presidente de uma emrpesa de publicidade que representa clientes internacionais como British Airways e Nestlé. Cordier se viu obrigado a demitir seis dos seus 30 funcionários e a reduzir seus salários à medida que seus clientes abandonavam o país.

Washington diz que as sanções têm por objetivo reduzir a "desestabilizadora" atividade do Irã no Oriente Médio, mas para muitos é uma tentativa de detonar uma revolução.

Existe muito ódio com o governo Trump, mas uma surpreendente quantidade de iranianos culpa o próprio Executivo por não protegê-los melhor. "Sim, os Estados Unidos estão fazendo coisas ruins, mas velam por seus interesses. Se o nosso Estado tivesse velado pelos interesses do Irã, não teríamos a situação que temos agora", considera Erfan Yusufi, de 30 anos, dono de uma cafeteria.

Os líderes iranianos têm se mostrado desafiadores com relação à pressão americana, enquanto reconhecem o dano econômico que o país está sofrendo. "Todos nós entendemos o que o povo está sofrendo", declarou o presidente Hasan Rohani, na semana passada, ao Parlamento. "Não podemos dizer ao nosso povo que, devido à pressão americana, não podemos fazer nada. Não é uma resposta aceitável".

Existem poucos sinais de que os iranianos queiram outra revolução, sobretudo porque uma parte importante deles ainda apoia firmemente a última. Muitos outros temem a violência, ao estarem intimidados pelas forças de segurança ou por não quererem obedecer às ordens de um poder estrangeiro.

Entre os jovens, a situação é ainda mais dramática. A taxa de desemprego entre a juventude iraniana chegou a 28,5% em julho deste ano. Os jovens iranianos se referem a si mesmos como a “geração perdida”, pois tiveram negada a oportunidade de desenvolver seu potencial.  "O futuro me preocupa", reconhece Yusufi. "Nossa geração começa cada dia sem saber o que será de nós", conclui, fatalista. / AFP

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