Iraque anuncia novo governo pró-Irã e supera 8 meses de vazio político

Guerra sem fim. Atual primeiro-ministro Nuri al-Maliki segue no comando da coalizão governista, majoritariamente xiita, e o líder curdo Jalal Talabani também continua como presidente; risco de novos confrontos sectários já assusta iraquianos e americanos

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

As pressões americanas conseguiram forçar os líderes iraquianos a formar um governo de união nacional, que deve encerrar o impasse iniciado nas eleições de março deste ano. Apesar de ainda faltarem alguns detalhes, as principais facções políticas do Iraque integrarão o novo governo, que será liderado pelo atual premiê Nuri al-Maliki.

O primeiro-ministro foi mantido no cargo ao ser eleito pelos deputados que se reuniram ontem no Parlamento - apenas pela segunda vez nos oito meses de crise. Nas eleições de março, Maliki liderou uma coalizão composta apenas por xiitas e acabou derrotado pelo ex-primeiro-ministro Iyad Allawi, um xiita moderado com uma plataforma nacionalista, que comandava uma aliança com os sunitas.

O problema é que, apesar da vitória, Allawi não conseguiu o número necessário de cadeiras no Parlamento para compor um governo. Já Maliki, com apoio dos curdos e da facção radical xiita de Moqtada al-Sadr, aliada do Irã, juntou deputados suficientes para formar um governo que não contaria com sunitas.

Ao estilo libanês. Insatisfeitos e temendo uma influência ainda maior do Irã na política do Iraque, os Estados Unidos atuaram diretamente para reduzir as diferenças entre os dois maiores rivais políticos iraquianos. O presidente Barack Obama telefonou tanto para Maliki como para Allawi nesta semana para negociar um acordo.

Na nova formação do gabinete, o curdo Jalal Talabani permanece na presidência. O deputado sunita Osama al-Nujaifi, aliado de Allawi, será o presidente do Parlamento. Essa composição deixa o Iraque com uma divisão sectária na política que lembra a libanesa.

Concordando que Maliki seja mantido como premiê, Allawi dirigirá um conselho político estratégico com voz ativa na segurança do país. Analistas ressaltavam ontem que o maior risco será o primeiro-ministro não respeitar o poder de Allawi nessa área, levando a um novo impasse no futuro.

O eventual acordo com o mais votado das eleições seria uma boa notícia aos EUA, que não querem uma administração sem os sunitas. A Síria e a Arábia Saudita adotam uma posição semelhante à de Washington.

Até todos os lados chegarem a um acerto nesta semana, a expectativa era de uma administração quase inteiramente controlada por xiitas e ligada ao governo do Irã.

Com a intensificação da violência nas últimas semanas em Bagdá e o aumento no número de ataques contra cristãos, as facções políticas rivais iraquianas concluíram que era melhor fazer um pacto a permitir que a situação se deteriorasse ao ponto de o cenário de guerra civil voltar a assombrar um país que luta para se reconstruir.

PERFIL

Nuri al-Maliki

PREMIÊ IRAQUIANO

De militante anti-Saddam a líder pró-EUA

Nuri al-Maliki, de 60 anos, é um dos homens fortes do Dawa, partido xiita que durante anos foi o pilar da resistência armada contra o Partido Baath, do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein. Ele lidera o governo do Iraque desde 2006.

Apesar das raízes islâmicas do movimento Dawa, Maliki é visto como um líder agregador, capaz de reunificar o país destroçado por guerras e divisões internas, especialmente depois que Saddam foi deposto pelas forças americanas, em 2003. Apesar da confiança que Washington deposita em Maliki, ele por vezes é criticado pelos Estados Unidos e pela minoria sunita do Iraque como um político próximo demais do regime iraniano.

CRONOLOGIA DAS ELEIÇÕES IRAQUIANAS

08/12/2009

Votação é marcada

07/03/2010

Eleições ocorrem

16/05/2010

Iraqiya obtém maioria apertada no Parlamento

07/08/2010

Última brigada do Exército dos EUA dedicada principalmente a combate

entrega a função a forças iraquianas

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