Iraque: Comandante dos EUA ameaça com novos métodos

Um comandante militar dos Estados Unidos advertiu líderes comunitários da cidade muçulmana sunita de Faluja que, se persistirem as atividades antiamericanas, as forças de ocupação usarão novos métodos, não especificados, para manter a ordem, informou hoje um iraquiano que participou da reunião. A advertência foi feita no sábado pelo general John Abizaid, comandante do Comando Central dos EUA, durante um encontro em Ramadi com prefeitos e líderes tribais da província de Anbar, a maior e mais perigosa região iraquiana para as forças de ocupação lideradas pelos EUA. Abizaid descreveu Faluja como uma "área difícil" e avisou que se a cidade se recusar a cooperar "no processo de reconstrução", "poderá haver outra política", relatou o prefeito de Faluja, Taha Bedawi, em entrevista à The Associated Press. Segundo Bedawi, o general não especificou quais seriam as novas medidas, mas teria advertido que "comportamento irresponsável como explosões e ataques contra forças da coalizão está proibido e tomaremos medidas. Temos a capacidade e os equipamentos". Horas depois do encontro, aviões de combate F-16 americanos despejaram três bombas de 230kg sobre a região de Faluja depois de uma série de ataques que feriram três soldados da 82ª Divisão Aerotransportada. "Parece que a implementação começou com os aviões de combate bombardeando áreas específicas, as quais eles (os americanos) dizem seriam fonte de terrorismo e resistência", avaliou Bedawi. Oficiais militares dos EUA em Bagdá confirmaram que forças americanas estão adotando táticas mais firmes depois que uma série de ataques matou mais de 30 soldados dos EUA durante a primeira semana de novembro. Faluja, o centro da resistência muçulmano sunita 65 quilômetros a oeste de Bagdá, tem sido palco de numerosos ataques contra tropas dos EUA desde a derrubada do regime de Saddam Hussein em abril. Durante a reunião com o general Abizaid, líderes tribais pediram ao comandante americano para libertar dezenas de clérigos que foram detidos nos últimos meses por tropas dos EUA, disse Bedawi. Abizaid prometeu libertar aqueles não envolvidos com a violência e um foi solto, afirmou o prefeito. Alguns participantes, continuou Bedawi, disseram a Abizaid que as pessoas que promovem ataques podem não ser iraquianas, "porque vocês não controlam a fronteira". Anbar faz fronteira com Síria, Jordânia e Arábia Saudita. Os bombardeios dos F-16 na noite de sábado aterrorizaram alguns iraquianos de Sijeir, poucos quilômetros a oeste de Faluja. Mas moradores adiantaram que a luta vai continuar até que os americanos deixem o país. "Nem a América nem o pai da América vai nos assustar", declarou Najih Latif Abbas, de 45 anos, que relatou que seus 17 filhos ficaram aterrorizados quando as bombas sacudiram sua casa. "Iraquianos estão atacando e os americanos retaliam aterrorizando nossos filhos." O agricultor Fakhri Fayadh, de 60 anos, sublinhou que "os americanos promovem fortes ataques, mas esses atos irão apenas aumentar nosso rancor e ódio contra eles. Se eles pensam que vão nos amedrontar, eles estão enganados. Dia após dia os americanos serão alvejados e os ataques contra eles irão aumentar". Seif Abed, de 13 anos, relatou que pulou da cama por volta da meia-noite e ficou por horas na sala com seus pais e sete irmãos e irmãs durante o bombardeio. "Fiquei com muito medo quando ouvi as explosões", contou, enquanto brincava com amigos perto de sua casa. "Odeio os americanos porque eles são infiéis e espero que eles deixem o Iraque e nosso país continue conosco." Bedawi, que foi indicado pelos EUA, não acredita que o uso da força faça com que iraquianos mudem de opinião em relação à ocupação. "Atos de força fazem aumentar o número de pessoas que se opõe às forças de coalizão", estimou. "Na verdade, esses atos fazem aumentar o número de seus inimigos." Bedawi foi apontado como prefeito desta cidade profundamente conservadora pouco depois que forças dos EUA capturaram Faluja em abril, mas sua autoridade é questionada por muitos dos 200.000 moradores, que o vêem como próximo demais dos americanos. O ressentimento contra ele explodiu no fim do mês passado, quando um grupo de iraquianos revoltados enfrentou policiais guardando a prefeitura, num tiroteio que deixou seu escritório e um carro incendiados. O mandato de Bedawi parece ter terminado ali. Ele não apareceu mais para o trabalho por dias e líderes tribais nomearam um sucessor. Entretanto, comandantes militares dos EUA na área não aceitaram a mudança e continuam considerando Bedawi o prefeito.

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