Iraque critica relatório da Grã-Bretanha sobre direitos humanos

O governo iraquiano afirmou hoje que seu povo não sofre com a tortura e outros abusos dos direitos humanos, mas sim com os efeitos das sanções impostas ao país e atribuídas à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos. Os comentários foram a primeira reação a um relatório de 23 páginas apresentado na segunda-feira pelo secretário de Exterior da Grã-Bretanha, Jack Straw, segundo o qual os iraquianos vivem com medo e o regime de Saddam Hussein não cumpre suas obrigações internacionais. O dossiê britânico, intitulado "Saddam Hussein: Crimes e Abusos dos Direitos Humanos", traz materiais apurados pelo serviço secreto, depoimentos de vítimas iraquianas de tortura e opressão e relatórios de organizações não-governamentais. O Iraque alega que as sanções econômicas impostas pela Organização das Nações unidas (ONU) após a invasão do Kuwait, em 1990, causaram a morte de centenas de milhares de pessoas. Bagdá acusa Estados Unidos e Grã-Bretanha de pressionarem para que as sanções continuem em vigor. Elas só poderão ser levantadas quando o Conselho de Segurança da ONU julgar que o Iraque não mais estoca armas de destruição em massa nem mísseis capazes de transportá-las. Um porta-voz não identificado do governo diz ainda que o relatório britânico não menciona que "os ataques aéreos ordenados por (Tony) Blair e seu senhor (George W.) Bush violam todos os direitos humanos no Iraque". Estados Unidos e Grã-Bretanha impuseram ao Iraque duas "zonas de exclusão aérea", uma no sul e outra no norte do país, para supostamente proteger as populações curda e muçulmana xiita que vivem nessas regiões. O Iraque considera as patrulhas uma violação de sua soberania. Erro O parlamentar Tam Dalyell, do Partido Trabalhista, disse hoje à Câmara dos Comuns que encontrou um erro no dossiê britânico. Segundo ele, uma acusação contida no relatório contra Odai Hussein - filho do presidente do Iraque, Saddam Hussein - segundo a qual ele teria ordenado "tortura em massa" da seleção de futebol de seu país foi contestada até mesmo pela Fifa, entidade que regula o esporte no planeta. Dalyell afirmou que uma investigação promovida pela Fifa não detectou nenhuma evidência de que Odai teria ordenado a tortura dos atletas, após uma derrota num jogo de eliminatória para a Copa do Mundo. O dossiê não diz quando o jogo foi disputado nem qual era o adversário. "Pode ter havido algum desentendimento entre a Fifa e o governo, ou autoridades iraquianas, mas peço a vocês que se concentrem na questão dos abusos dos direitos humanos no Iraque, que estão acima de qualquer dúvida", disse o primeiro-ministro Tony Blair, em resposta à acusação de Dalyell. O parlamentar alertou que evidências inconsistentes podem arrasar a campanha do governo. "Primeiros-ministros não deveriam ser arrogantes com a verdade", disse o parlamentar. "Pequenas inconsistências podem revelar inconsistências maiores. Pequenas mentiras às vezes fazem parte de grandes mentiras."

Agencia Estado,

04 Dezembro 2002 | 19h56

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