Iraque diz que Abu Nidal se matou para evitar julgamento

Abu Nidal, que foi em certa época o mais temido terrorista do mundo, preferiu dar fim à vida com um tiro na cabeça, em vez de enfrentar um tribunal iraquiano, sob a acusação de manter contato com um país estrangeiro, afirmou hoje o chefe da inteligência do Iraque. Autoridades encontraram um arsenal de armas automáticas e falsos passaportes no apartamento de Abu Nidal, disse a repórteres, em Bagdá, o chefe da inteligência Tahir Jalil Haboush, sem oferecer, entretanto, mais detalhes sobre a morte, inclusive o dia em que ela ocorreu. Em Beirute, a organização de Abu Nidal, o radical Conselho Revolucionário Fatah, anunciou que seu líder foi assassinado por uma agência de inteligência iraquiana. "Devido à nossa confiança no presidente Saddam Hussein, pedimos a ele para intervir pessoalmente para investigar as circunstâncias do crime de assassinato e desvendar... as partes por trás dele", afirmou a organização num comunicado. "Não sabemos exatamente as razões por trás do assassinato", revelou um dos integrantes do grupo, Mahmoud Issa, à tevê por satélite Al-Jazira, em Beirute. "Estávamos em contato com ele, e ele não falou sobre qualquer suspeita ou qualquer coisa que poria em risco sua vida".Já Haboush disse que agentes encontraram documentos que sugerem que Abu Nidal estava mantendo contatos com outro país, mas recusou-se a revelar qual. "Devido às atuais circunstâncias críticas pelas quais passa nosso país, não iremos nomeá-lo". Segundo Haboush, Abu Nidal, de 65 anos, se matou com um único tiro. Na Cisjordânia, autoridades palestinas disseram que o terrorista, cujo verdadeiro nome era Sabri al-Banna, foi encontrado morto com vários ferimentos a bala na sexta-feira, mas não explicaram como ele poderia ter disparado contra si mesmo várias vezes. Quando agentes de segurança chegaram à sua casa para levá-lo a um tribunal, Abu Nidal disse que precisava ir ao seu quarto para trocar de roupa, relatou Haboush. Um disparo foi ouvido, e os agentes encontraram Abu Nidal com um tiro na boca, acrescentou. O terrorista foi levado às pressas para um hospital mas veio a falecer oito horas depois, afirmou. Haboush mostrou fotos do que seria o corpo de Abu Nidal numa unidade de tratamento intensivo de um hospital: um homem de cabelos grisalhos numa cama, lençóis estendidos até seu peito, sua face coberta de sangue. O chefe de inteligência disse que Abu Nidal havia entrado ilegalmente no Iraque em 1999 vindo do Irã, usando um falso passaporte ienemita. Mas, em Beirute, a organização de Abu Nidal afirmou que ele entrou no Iraque "com o pleno conhecimento e preparação de autoridades iraquianas." A confirmação da morte de Abu Nidal no Iraque ocorre em meio a denúncias de que ele havia recentemente mantido contatos com agentes de inteligência sauditas e kuwaitianos, e que planos de um ataque americano contra o Iraque haviam sido encontrados em seu apartamento. As denúncias, feitas na terça-feira por um alto funcionário palestino em Ramallah, Cisjordânia, foram rapidamente rejeitadas pela Arábia Saudita e Kuwait. O Iraque nunca havia admitido que Abu Nidal encontrava-se no país, até que surgiram rumores sobre sua morte em Bagdá, nesta semana. Surgiram suspeitas de que ele havia sido assassinado. Haboush não respondeu quando perguntado em que dia Abu Nidal morreu. Ele disse a repórteres que um Estado árabe não identificado informou a seu governo, em 1999, que Abu Nidal tinha entrado no Iraque. Oficiais iraquianos investigaram o paradeiro de Abu Nidal e um grupo de agentes foi enviado a seu apartamento com ordens de levá-lo a um tribunal, afirmou. Ele não explicou porque levou tanto tempo para o Iraque encontrar Abu Nidal. O chefe da inteligência disse que foram encontrados na casa de Abu Nidal três passaportes, além do ienemita. Ele não informou que países emitiram os passaportes, mas acrescentou que eles devem ser falsos. Também foram encontradas armas de fogo, carteiras de identidade falsas em nomes diferentes e oito sacolas com explosivos. Haboush mostrou fotos de três fuzis AK-47 e 10 pistolas - duas com silenciadores. No rancho do presidente americano George W. Bush no Texas, o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que a presença de Abu Nidal no Iraque comprova as ligações de Bagdá com o terrorismo. "O fato de apenas o Iraque oferecer um lugar seguro para Abu Nidal demonstra a cumplicidade do regime iraquiano com o terrorismo global", afirmou. Abu Nidal - nascido em Jaffa, sul de Tel Aviv, no que então era a Palestina governada pelos britânicos - uniu-se à Organização de Libertação da Palestina e chegou a ser um assessor próximo de seu líder, Yasser Arafat. Mas ele se indispôs com Arafat na década de 70, acusando-o de ser muito brando, e formou o Conselho Revolucionário Fatah. A facção matou pelo menos 275 pessoas numa campanha de terror que atingiu vários continentes. Entre seus ataques mais notórios está o contra guichês da israelense El Al nos aeroportos de Roma e Viena, em 1985. Dezoito pessoas foram mortas e 120, feridas. Depois do grupo de Abu Nidal ter matado o vice de Arafat, Salah Khalaf, conhecido como Abu Iyad, em Túnis em 1991, suas atividades declinaram. Abu Nidal circulou pelo Oriente Médio, sendo renegado por um Estado depois do outro.

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