Iraque é exemplo de eficácia das velhas armas

A relativa calma que as Forças Armadas dos EUA impuseram no Iraque certamente é motivo para um otimismo moderado. Mas também levanta algumas questões óbvias: como isso foi alcançado e o que significa para o futuro planejamento da estratégia de defesa?Compreensivelmente, muitos analistas atribuem esse sucesso ao fato de as tropas dos EUA seguirem os ditames do elogiado novo manual de contra-insurgência do Exército. Embora o manual seja bem melhor do que seus antecessores, seria um enorme erro tomar isso como uma prova de que - como tem feito a imprensa, a comunidade acadêmica e organizações políticas independentes - essa vitória sobre os insurgentes foi obtida por qualquer outra tática que não o uso de força militar tradicional.Infelizmente, entusiastas fascinados interpretaram mal o manual ao dizerem que para derrotar uma insurgência é preciso conquistar corações e mentes com equipes de antropólogos, propagandistas políticos e agentes graduados de assuntos civis munidos de kits prontos de democracia. Eles consideram ultrapassado matar ou capturar insurgentes.Mas a realidade é bem diferente. A lição do Iraque é que forças tradicionais funcionam. Acrescente 30 mil soldados da melhor infantaria do mundo aos 135 mil soldados calejados pela batalha que já estão lá, como foi feito, e a insurgência em menor número estará em séria encrenca. Detenha mais milhares de iraquianos como ameaças à segurança, e o potencial para a violência inevitavelmente declina.Notícias veiculadas pela imprensa indicam que o número de iraquianos presos dobrou no ano passado, de 15 mil para 30 mil. E embora o número de baixas seja vago, militares disseram ao jornal USA Today em setembro que o número de insurgentes mortos era 25% mais alto do que em todo o ano de 2006.Apesar de a nova doutrina da contra-insurgência parecer antitecnológica - desencolrajando o uso do poderio aéreo -, comandantes no Iraque conseguiram bons resultados no ano passado deixando de lado tais recomendações. Poucos americanos sabem que os ataques aéreos quintuplicaram em 2007, em relação ao ano anterior, o que ocorreu paralelamente à estratégia de reforço de tropas. Mais uma vez, recorrer à alta tecnologia mostrou ser um grande sucesso. Dois outros fatos desconfortáveis também ajudaram a reduzir a violência. Primeiro, a população iraquiana em grande parte segregou-se em feudos sectários. Segundo, insurgentes supostamente "regenerados" agora dominam a Província de Anbar. Embora esses partidários sunitas tenham por enquanto tomado o lado dos EUA, será que podemos supor que eles incorporaram a idéia de um Iraque verdadeiramente pluralista e democrático?Admiradores do manual de contra-insurgência usam-no como um porrete contra as pessoas que planejam a estratégia da próxima guerra em vez da atual. Segundo essa linha de pensamento, a próxima guerra será uma repetição do Iraque e, assim, a maior parte das Forças Armadas americanas deve estar estruturada para a contra-insurgência.Mas isso não leva em conta outras possíveis ameaças. Será que devemos ignorar a crescente força da China e os planos da Rússia para desenvolver uma quinta geração de caças que irá suplantar o jato americano top de linha, o caça F-22?Mais ainda: será que alguém acredita que criar equipes de altos funcionários dedicados a assuntos civis irá deter a Coréia do Norte e o Irã?Sim, há sempre a possibilidade de que nos encontremos mais uma vez combatendo uma insurgência e o manual contém muitas boas idéias. Além disso, a proposta de uma equipe de 20 mil consultores para ajudar as forças locais iraquianas a combater os insurgentes deve logo receber luz verde.O problema surge quando consideramos alocar excesso de recursos na preparação para apenas um tipo de conflito. Fazer isso colocaria os EUA numa situação de verdadeiro perigo de perder a superioridade tecnológica que tem mantido as ameaças muito mais perigosas à distância. Por exemplo, deve-se considerar que os aviões de guerra dos EUA têm pelo menos 25 anos.O enorme custo da guerra no Iraque, sem falar na perda de vidas de ambos os lados, deveria aconselhar contra a idéia de uma operação semelhante em outro lugar. Olhando para o futuro, os EUA precisam de Forças Armadas preparadas não em ocupar outro país mas em impedir que os adversários em potencial tenham capacidade de atacar interesses americanos. Essa não é uma tarefa para contra-insurgentes, mas para Forças Armadas de alta tecnologia que substituam os cadáveres de jovens americanos por máquinas. TRADUÇÃO DE MARIA DE LOURDES BOTELHO* Charles J. Dunlap Jr. é brigadeiro americano e autor do livro Shortchanging de Joint Fight?, uma avaliação do manual de contra-insurgência do Exército. Ele escreveu este artigo para ?The New York Times?

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