Iraque não tem como fazer arma nuclear, diz cientista

O Iraque não tem mais qualquer capacidade técnica de construir armas nucleares e os inspetores da ONU sabem disso. A afirmação é do cientista Imad Khadduri, um dos criadores do programa nuclear iraquiano e que apesar de ter fugido do país em 1998 para morar no Canadá, resolveu dar sua versão sobre as atividades atômicas de Bagdá para mostrar que não existe motivo nem evidências que justificam uma guerra contra o Iraque. Depois de muita insistência por parte deste jornal e de mais de três semanas de contatos por email, Khadduri concordou em falar com o jornal O Estado de S.Paulo para deixar claro que todas as evidências apresentadas pelo secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, ao Conselho de Segurança da ONU são "mentiras ridículas" e que desde 1991, quando terminou a Guerra do Golfo, o programa nuclear iraquiano foi desmontado. "Conheço o programa nuclear do Iraque praticamente desde o início e sei exatamente o que existe", afirma. Khadduri entrou para o governo de Bagdá em 1968, depois de estudar tecnologia nuclear nos Estados Unidos e na Inglaterra. O cientista garante: foram os norte-americanos, temendo uma influência da ex-União Soviética, que estimularam um programa nuclear no Iraque. "Essa aproximação ocorreu em 1956, quando o governo de Eisenhower estabeleceu um coooperação para a pesquisa nuclear com fins pacíficos", afirma Khadduri, lembrando que Washington enviou informações técnicas e até mesmo um reator de presente ao Iraque na época. O cientista confirma que, nos anos 70, o programa iraquiano contou com a importação do urânio brasileiro. "Lembro-me claramente das relações com o Brasil. Mas tudo o que compramos dos brasileiros foi monitorado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)", afirma Khadduri. BombaApesar das atividades científicas terem predominado a agenda do programa nuclear de Bagdá nos anos 60 e 70, o iraquiano reconhece que, em 1981, o presidente Saddam Hussein decidiu pela construção de bombas. O motivo foi o ataque realizado por Israel, em 7 de junho daquele ano, contra o reator nuclear de Osirak, construído com ajuda França. "Os israelenses temiam que o reator fosse usado para fins militares. Mas curiosamente foi esse ataque que convenceu Saddam a ter instrumentos para se defender", afirma o cientistas, que reconhece que, a partir de 1981 todos os técnicos foram convocados para construir a bomba. Segundo Khadduri, em fevereiro de 1991, com o fim da Guerra do Golfo, os inspetores da ONU voltaram ao Iraque e o programa nuclear foi desmontado. "A CIA, os serviços de inteligência da Inglaterra e de Israel não vão encontrar nada no Iraque por que simplesmente não existe nada para ser encontrado", afirma. Uma prova disso, segundo ele, é que os Estados Unidos deram ao inspetor chefe da ONU, Hans Blix, uma lista de 25 lugares suspeitos de armazenar armas de destruição massiva. "Os inspetores foram até esses locais e não encontraram nada. Gostaria de saber porque é que Blix não disse isso em sua última apresentação ao Conselho de Segurança (da ONU)", questiona o iraquiano. Além disso, o cientista acusa os Estados Unidos de estarem escondendo informações que foram enviadas pelo Iraque à ONU, em dezembro. "O relatório de Bagdá continha 12 mil páginas. Washington divulgou apenas 3 mil. Onde estão as outras 9 mil páginas", indaga o iraquiano. "Será que há algo que eles não querem que o mundo veja", completa. CientistasSobre a acusação de Powell de que os cientistas iraquianos estariam sendo ameaçados de morte por Bagdá se cooperarem com Washington ou com a ONU, Khadduri garante que se trata de uma versão fabricada pelos norte-americanos. "Eu assinei, nos anos 90, declarações de que seria punido com pena capital se violasse regras de Bagdá. Mas essas regras exigiam que déssemos todas as informações necessárias à ONU e seríamos condenados se alguém fosse pego escondendo algum documento em suas próprias casas", explica. Segundo ele, os cientistas do Iraque não querem ser entrevistados pela ONU por que sabem que suas versões serão manipuladas. "Não culpo os cientistas por não quererem falar", diz. Khadduri não nega que o regime de Saddam Hussein seja rígido. "Eu mesmo fui preso por 18 dias porque o governo desconfiava que eu teria passado informações secretas a outros governos. Ficou provado que não fui eu e me soltaram", disse. SançõesKhadduri aponta que as sanções impostas pela ONU ao Iraque estão destruindo o país há dez anos. "Foi por isso que abandonei o Iraque. O país está sendo estrangulado há uma década", completa o cientista.

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