Iraque revisará licença de empresas de segurança

Decisão é tomada depois da morte de 11 civis iraquianos em tiroteio em Bagdá, no qual se envolveram guardas de uma companhia americana

Mariana Della Barba, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

O governo iraquiano anunciou ontem que revisará a licença de todas as empresas privadas de segurança que operam no país. A decisão foi tomada depois que guardas da companhia americana Blackwater se envolveram num tiroteio que deixou 11 mortos em Bagdá, no domingo. O porta-voz do governo, Ali al-Dabbagh, informou que Bagdá e Washington criaram uma comissão para investigar as mortes. Na segunda-feira, o Ministério do Interior iraquiano já havia suspendido a licença da Blackwater para atuar no país. "Não pretendemos suspender (as empresas de segurança) indefinidamente, mas elas precisam respeitar as leis", disse Dabbagh. De acordo com a polícia, os seguranças da Blackwater teriam atirado aleatoriamente contra os iraquianos, após granadas de morteiro terem caído perto do comboio em que estavam. A empresa alegou que seus funcionários reagiram "apropriadamente" a um ataque hostil. Assim como outras empresas particulares que atuam no Iraque, a Blackwater faz a segurança, principalmente, de diplomatas americanos. Estima-se que haja 127 mil seguranças civis no Iraque. Segundo um estudo apresentado ao Congresso americano, 1.001 seguranças morreram no Iraque até julho. O uso de seguranças particulares - que também ocorre em conflitos como o do Afeganistão - é duramente criticado por opositores do presidente americano, George W. Bush. Isso porque eles são acusados de ignorar leis nacionais e internacionais, já que não precisam prestar contas nem ao governo iraquiano nem ao Exército dos EUA. Outra crítica é que há um gasto maior com esses seguranças, porque eles ganham mais que os soldados. "O problema é que o número de soldados americanos é insuficiente. Por isso, o governo transfere funções como proteger diplomatas e funcionários de grupos humanitários para essas empresas privadas", disse ao Estado Mark Schneider, especialista em política externa americana do International Crisis Group. "Mas, como podemos ver com o caso da Blackwater, é uma péssima idéia.""Com o caos no Iraque, a necessidade de proteção dos comboios excedeu qualquer planejamento que os especialistas poderiam ter feito", disse o militar da reserva Gerald Schumacher, autor do livro A Bloody Business - War Zone Contractors and the Occupation of Iraq (Negócio Sangrento - Seguranças Privados na Guerra e a Ocupação do Iraque). O problema com as companhias particulares é uma das principais preocupações de Washington. "Controlar o crescimento dessas empresas é dificílimo. Os EUA já estão dependentes demais delas", disse Schumacher. Para Schneider, "o ideal seria os EUA não se envolverem em tantos conflitos ou, antes de entrar em um, garantir que outros países os apóiem militarmente". Por causa da polêmica com as empresas privadas, os funcionários americanos foram proibidos ontem de sair da Zona Verde, área fortemente protegida no centro de Bagdá. COM AP REUTERSINCIDENTES COM FIRMAS DE SEGURANÇA NO IRAQUE Fevereiro de 2005 - Ex-funcionários da Custer Battles acusam colegas de atirar em civis e de atacar carro com crianças. Empresa nega acusaçõesMaio - Após atirarem em tropas americanas e em civis, 16 guardas da Zapata Engineering são presos Julho de 2006 - Dois empregados da Triple Canopy acusam o supervisor de atirar em civis por divertimento. Os três são demitidos por não relatar incidente Dezembro - Funcionário alcoolizado da Blackwater mata segurança do vice-presidente xiita Adel Abdul-Mahdi. Incidente está sob investigação Maio de 2007- Segurança da Blackwater mata civil que se aproximava da sede da empresa. Companhia defende açãoSetembro - Seguranças da Blackwater matam 11 civis em tiroteio. Governo iraquiano acusa seguranças de atirar aleatoriamente. Funcionários alegam autodefesa

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