Iraque rouba a cena de outros assuntos importantes na ONU

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu à Assembléia Geral para se concentrar na epidemia de aids, educação feminina, no terrorismo e em quatro grandes conflitos mundiais. Ele chegou mesmo a reservar um dia para se discutir os problemas mais prementes da África. Mas a questão do Iraque roubou as luzes no encontro anual dos líderes mundiais.O debate da Assembléia Geral, aberto em 12 de setembro e que se encerra hoje, deu a praticamente todos os 190 Estados membros da ONU - mais a missão de observadores palestinos - um fórum para apresentar seus mais desafiadores problemas.Mas a questão iraquiana tomou o palco, começando com o discurso do presidente dos EUA, George W. Bush, na abertura dos trabalhos, durante o qual ele apresentou o caso de seu país contra o Iraque, seguindo-se com o anúncio, quatro dias depois, de que o Iraque iria permitir que os inspetores de armas da ONU retornassem incondicionalmente ao país após quatro anos de ausência.O secretário-geral Kofi Annan abriu os debates da Assembléia Geral em 12 de setembro - um dia depois de muitos delegados terem participado de solenidades do 11 de setembro em Nova York - com uma exortação aos líderes mundiais para agirem rapidamente em relação a quatro assuntos prementes: o conflito israelense-palestino, o indiano-paquistanês, o Iraque e o Afeganistão.Em seu discurso, Bush disse ao Conselho de Segurança (CS) da ONU que ele precisava ser duro com o Iraque, que não cumpre há uma década resoluções do CS exigindo que ele admita as inspeções de armas e se desarme. Se o conselho não agir, deixou claro Bush os EUA agirão sozinhos.Mas com o aumento da pressão em vista do discurso de Bush, o Iraque surpreendeu o mundo na segunda-feira aceitando o retorno incondicional dos inspetores - um desdobramento que rapidamente dividiu os membros do CS e deflagrou dias de embates diplomáticos que dominaram a assembléia.Alguns líderes expressaram consternação com o fato de a questão iraquiana ter jogado outros problemas para escanteio. Mesmo numa entrevista coletiva com protagonistas-chave buscando soluções para o conflito israelense-palestino - entre eles o secretário de Estado americano, Colin Powell -, o Iraque foi o assunto dominante.Enquanto isso, um após outro, líderes mundiais tentavam em seus discursos lembrar à Assembléia Geral de questões urgentes em outras partes do mundo.O presidente Hamid Karzai, o primeiro chefe de Estado afegão a discursar na Assembléia Geral em mais de uma década, pediu a países doadores para cumprirem promessas de ajuda financeira e advertiu para a necessidade da expansão da força internacional de paz em seu país.O presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, e o primeiro-ministro indiano, Atal Bihari Vajpayee, em seus discursos, se acusaram mutuamente pela violência na Caxemira e a instabilidade na região, carregada de armas nucleares.Em meio a mais violência no Oriente Médio, Israel e os árabes aproveitaram o fórum para rotular uns aos outros de terroristas, mas acenaram com uma chance de paz no conflito de 54 anos.A Arábia Saudita - terra natal de 15 dos 19 seqüestradores de 11 de setembro - reafirmou seu compromisso com a campanha global contra o terrorismo, mas advertiu que o mundo tem de tratar as condições sociais e políticas que transformam "jovens ingênuos" em terroristas.Cuba acusou os EUA de "mentirem descaradamente", e desafiou a administração Bush a apresentar uma única prova de que a ilha subverteu deliberadamente a guerra liderada pelos EUA contra o terrorismo.O vice-presidente da Bolívia exortou as nações ricas, como os EUA, a abrirem seus mercados para exportações dos países latino-americanos pobres, advertindo sobre a instabilidade econômica e o aumento da tensão na região.Sublinhando que a Iugoslávia agora é uma democracia, o presidente Vojislav Kostunica disse ser "inacreditável" a continuidade da "desconfiança" em relação a seu país.A Coréia do Norte pediu aos EUA para abandonarem sua posição hostil e deixar de colocá-la como parte de um "eixo do mal".A junta militar que governa Mianmá desde 1962 prometeu reintroduzir a democracia multipartidária no país do Sudeste Asiático.Pequenas ilhas-nações apelaram aos países para conterem o aquecimento global, acusando o fenômeno de estar fazendo aumentar o nível dos oceanos, colocando em risco a existência delas.O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, pediu às agências da ONU para ajudar a recém-formada União Africana a modernizar a economia do continente, combater doenças e "pôr fim à humilhação da África como objeto de caridade".Mas nenhuma dessas importantes questões ganharam a atenção que os oradores esperavam.Algumas autoridades africanas e especialistas em desenvolvimento não se surpreenderam com o fato de o Iraque ter tomado a atenção e distraído os delegados. Mas alguns de seus colegas criticaram a marginalização de problemas que são questão de sobrevivência para milhões e milhões de pessoas pobres do mundo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.