REUTERS/Alaa al-Marjani
REUTERS/Alaa al-Marjani

Iraquianos desafiam toque de recolher para protestar contra governo; nº de mortos vai a 44

Em pronunciamento na TV, primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi disse entender a frustração da população, mas ressaltou que não há "solução mágica" para os problemas do país; ONU pede investigação rápida e transparente das mortes

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h45

BAGDÁ - Dezenas de manifestantes concentraram-se nesta sexta-feira em pelo menos cinco pontos de Bagdá, capital do Iraque, para solicitar mais serviços básicos pelo quarto dia consecutivo, apesar do toque de recolher imposto pelo governo na véspera.

Os confrontos nos últimos três dias entre manifestantes e as forças de segurança deixaram ao menos 44 mortos e mais de 1,6 mil feridos, segundo fontes policiais e médicas.

Os protestos na capital iraquiana começaram na terça-feira e foram convocados nas redes sociais pelos cidadãos, que tanto pela internet, como nas ruas, exigem melhorias nos serviços públicos, como água e eletricidade, mais oportunidades de trabalho e o fim da corrupção.

No momento, nenhum partido ou movimento político das várias facções que dominam o cenário político iraquiano lidera as mobilizações, embora alguns expressaram sua solidariedade e apoio às reivindicações dos manifestantes, na sua maioria jovens.

Reação do governo

Em um discurso transmitido na TV durante a madrugada, Adil Abdul-Mahdi disse entender a frustração e o sofrimento da população, mas ressaltou que não há "solução mágica" para os problemas do país.

"Não vivemos em torres de marfim - andamos entre vocês pelas ruas de Bagdá", afirmou o premiê. Ele também pediu calma e apoio dos legisladores para reorganizar o gabinete governamental sem a influência de grandes partidos e grupos.

O primeiro-ministro, cujo governo foi formado em outubro do ano passado com perfil tecnocrata, prometeu que um salário básico para famílias pobres seria discutido pelo governo e pelos legisladores.

Dimensão dos protestos

De acordo com autoridades iraquianas. a cidade com a maior quantidade mortos é Nassiriya, com 18 vítimas, seguida pela capital Bagdá, com 16, e Amara e Baquba, com 4 mortes cada. Há relatos de vítimas em cidades no sul do país, como Hilla e Najaf.

As autoridades fecharam estradas no norte e nordeste do Iraque que dão acesso à capital e enviaram reforços ao leste de Bagdá, uma região densamente povoada. Comboios militares também foram deslocados para Nassiriya, a cidade mais atingida pela onda de violência.

Em bagdá, ignorando o toque de recolher, manifestantes se reuniram ainda no escuro sob a luz de uma fogueira entre destroços de um veículo blindado às margens do Rio Tigre, perto do complexo governamental.

"Eles estão atirando munição real contra o povo iraquiano e os revolucionários. Podemos atravessar a ponte e tirá-los da Zona Verde!", gritou um manifestante.

"Abdul-Mahdi, eles atravessarão a ponte. É melhor você renunciar. Renunciar. O povo exige a queda do regime!", continuou o homem enquanto a multidão repetia um cântico que se tornou popular no Oriente Médio durante os levantes em toda a região durante a Primavera Árabe: "O povo exige a queda do regime!"

Irritação popular

Os protestos, que ganharam apoio popular em razão da irritação causada pelos baixos padrões de vida e a corrupção, são o maior desafio de segurança do Iraque desde a derrota do Estado Islâmico em 2017. É também o primeiro teste para Abdul-Mahdi, que chegou ao poder no ano passado com apoio dos partidos xiitas que dominaram o Iraque desde a queda de Saddam Hussein, em 2003.

A onda de protestos também acontece às vésperas da peregrinação xiita de Arbaeen, que nos últimos anos atraiu até 20 milhões de fiéis, caminhando durante dias a pé pelo sul do Iraque na maior reunião anual do mundo, dez vezes o tamanho do que o Hajj a Meca, na Arábia Saudita.

Os peregrinos já estão nas estradas nesta sexta-feira, embora aparentemente em um número menor do que nos últimos anos. O Irã fechou uma das passagens de fronteira usadas por milhões de peregrinos. O Catar sugeriu a seus cidadãos que fiquem longe do Iraque.

O aiatolá Ali Sistani, principal autoridade dos xiitas do Iraque, expressou nesta sexta-feira apoio às grandes manifestações registradas no país esta semana e pediu ao governo uma resposta "antes que seja tarde".

"O governo deve cumprir com seu dever e melhorar os serviços públicos, proporcionar empregos aos que não têm, evitar o clientelismo no setor público e acabar com a corrupção, levando os responsáveis à justiça", afirmou Sistani, em um sermão lido por um de seus auxiliares. 

ONU pede investigação de mortes

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediu nesta sexta ao Iraque uma investigação rápida e transparente sobre os mortos registrados nos últimos dias na repressão às manifestações. 

"Pedimos ao governo iraquiano que permita à população exercer seu direito a assembleia pacífica e liberdade de expressão", disse Marta Hurtado, porta-voz do Alto Comissário, em Genebra. 

"Estamos preocupados com informações que indicam que a polícia usa balas de borracha e munição real em algumas áreas e que jogou gás lacrimogêneo contra os manifestantes", acrescentou a porta-voz. 

"Todos os incidentes em que policiais causaram mortes e feridos devem ser submetidos a uma investigação rápida, independente e transparente", segundo Marta. / REUTERS, EFE e AFP

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