Bryan Denton/The New York Times
Bryan Denton/The New York Times

Iraquianos fogem do califado do Estado Islâmico

Família conta como deixou região de Mossul na companhia de vizinho e foi viver em campo de refugiados

O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2016 | 06h00

MOSSUL - A jovem Um Mahmud caminhou a noite toda com o marido e os três filhos para chegar a um campo de refugiados ao sul de Mossul. Fugindo de extremistas do Estado Islâmico (EI), ela deixou para trás seus vizinhos, mortos na explosão de uma mina. "Foi um membro do Estado Islâmico que nos ajudou a fugir, nos pediu US$ 100 por pessoa para nos levar a uma aldeia", explica a mulher diante de uma tenda de campanha azul e branca.

Essa família conseguiu chegar ao campo de Jedaah, na periferia de Al Qayyarah, a uma dezena de quilômetros da linha de frente. Partiu junto aos seus vizinhos, mas eles morreram na explosão de uma mina pouco antes de chegar, conta Um. Com sua família, a mulher se uniu a centenas de outros deslocados no campo de Jedaah: civis que fugiram de Mossul e de aldeias controladas pelo EI.

Muitos viviam em condições precárias há meses na região de Mossul ou na província vizinha de Kirkuk, como é o caso de Um, que morava na aldeia de Hawija, reduto dos extremistas.

O campo de Jedaah foi aberto no dia 19 e é administrado pelas autoridades provinciais, com a ajuda de ONGs e do Unicef. "Nossa capacidade atual é de mil tendas para acolher cinco mil pessoas. Mas vamos dobrar nossas instalações. O mais importante são as latrinas e a água corrente", explica Mohamed Sami, um dos responsáveis pelo local.

A poucos quilômetros dali, as forças iraquianas instalaram um posto de controle que recebe os deslocados que conseguiram fugir da linha de frente até os corredores abertos pelo Exército. Alguns temiam ficar presos no fogo cruzado, outros fugiram, sobretudo da falta de alimentos.

Ajuda. "Se você está com o EI, recebe tudo o que precisa. Mas os demais não têm nada para comer devido ao bloqueio", afirma um dos deslocados. 

Em meio a uma paisagem de desolação, entre restos de veículos e destroços ao ar livre, dezenas de civis se dirigem ao campo, carregando algumas bolsas com o pouco que têm: roupas e alguns pães.

O horizonte está escuro devido à fumaça que emana dos poços de petróleo incendiados pelo EI. "Os extremistas fugiram de nossa aldeia ao sul de Mossul há quatro dias, aproveitando a noite para romper o cerco das forças iraquianas. Mas estávamos bloqueados, sem água ou alimentos. Então decidimos ir embora, outros ficaram para se ocupar de nossas ovelhas", explica Abu Jowaher, de 27 anos.

Enquanto fala, uma ambulância que retorna do front passa pelo posto de controle com as sirenes ligadas. É seguida por uma caminhonete repleta de civis. Um homem, de pé na parte traseira, ainda agita a bandeira branca que lhe permitiu atravessar as linhas iraquianas.

Ahmed Majid sente um verdadeiro sentimento de libertação, que esperava desde junho de 2014, quando foi sequestrado pelo EI durante um ataque contra a cidade de Samarra. "Quando se retiraram (de Samarra), os combatentes do EI nos forçaram a acompanhá-los e nos ordenaram que nos estabelecêssemos em uma aldeia perto de Mossul, sob seu domínio, no califado" autoproclamado pelos extremistas, afirma Majid.

Após um controle de segurança, os deslocados se instalarão em um dos campos da região.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) afirmou na segunda-feira 24 que em breve poderá acolher 150 mil pessoas que fogem dos combates ao redor de Mossul. Mas a segunda cidade iraquiana conta com 1,5 milhão de habitantes, de acordo com a ONU.

"Ainda temos poucos refugiados, já que a verdadeira batalha de Mossul ainda não começou. Mas acreditamos que haverá um fluxo enorme e a ajuda da comunidade internacional não está à altura do que nos prometeram. Se tudo seguir igual, estaremos caminhando para o desastre", afirma um oficial de alto escalão do exército iraquiano. / AFP

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