Iraquianos na Jordânia tentam mandar ajuda para parentes

Depois de ouvirem o discurso do presidente George W. Bush, transmitido às 3h da madrugada de ontem (hora local), os iraquianos na Jordânia passaram o dia telefonando para seus parentes, enviando-lhes cartas e suprimentos por portadores, preparando-se para recebê-los aqui ou mesmo para se juntar a eles em Bagdá.No terminal de lotações que fazem o trajeto Amã-Bagdá, Samira desce do carro com a filha de 4 anos e entrega um pacote a um dos motoristas de partida para o Iraque. "Estou mandando queijo e iogurte para meus pais e minhas irmãs que estão lá", diz Samira, segurando o véu que esvoaça ao vento frio. "Há dois dias eles ligaram e disseram que estava tudo bem, mas estou muito preocupada com minha família." A iraquiana está há 11 meses em Amã, aguardando visto para se juntar ao marido, na Alemanha.Orgulhoso, o comerciante jordaniano Mahmud al-Nrrert nega que haja motivo para levar comida para o Iraque, onde vive há 13 anos. "Lá temos tudo do que precisamos, porque Deus nos dá", assegura Al-Nrrert. "Sabemos que é perigoso, mas confiamos em Deus." Depois de passar uma semana em Amã, a negócios, o comerciante estava voltando a Bagdá, onde vive com a mulher iraquiana e três filhos. "Nós, cristãos e muçulmanos, precisamos nos manter unidos", propõe Al-Nrrert. "São os judeus que querem essa guerra."O motorista iraquiano Nal el-Naji trouxe ontem de Bagdá seis estudantes jordanianos - há 3 mil deles no Iraque. "Eles queriam ficar lá, mas suas famílias os mandaram voltar." A viagem dura de 10 a 12 horas e cada pessoa paga 10 dinares jordanianos (US$ 14). El-Naji disse ter visto muitos carros chegando até a fronteira e tendo de dar meia-volta: as autoridades jordanianas só estão permitindo a entrada de iraquianos com visto de trabalho ou residência. O motorista também viu muitos carros com placas diplomáticas vindo de Bagdá para Amã. Mas nem todos estão fugindo da guerra. Tala al-Abadi e Ahed al-Her, dois comerciantes jordanianos, aguardavam ontem à tarde a saída de uma lotação para Iraque. "Vamos ver se encontramos boas oportunidades de negócios", disseram os dois, placidamente. "Não sabemos quando estaremos de volta."El-Naji, de 56 anos, disse que voltará para Bagdá, para se juntar a sua mulher, cinco filhos e três netos. "Medo?", reage ele, com expressão de surpresa. "Sou um homem iraquiano, não tenho medo de nada." Sua mulher e filhas também não têm medo, afirma ele, graças à fé religiosa. Engenheiro aposentado, El-Naji garante que lutará para defender seu país com o fuzil Kalashnikov e a velha espingarda que guarda em casa."Saddam Hussein é um grande líder", assegura El-Naji. À pergunta sobre as denúncias de atrocidades que teria cometido contra o próprio povo, responde que "isso é conversa fiada, é propaganda, exagero." "A maioria dos iraquianos com quem você conversar dirá que gosta de Saddam", adverte o xiita iraquiano Rashad Badac. "As pessoas falam isso por medo. Ele odeia o povo e o povo o odeia." Badac, de 26 anos, telefonou ontem de manhã para sua família em Babilon, 80 quilômetros a oeste de Bagdá. Ele tem receio não só dos bombardeios americanos, mas do que Saddam possa fazer aos próprios iraquianos, para botar a culpa nos EUA.Badac conta que passou três anos na cadeia no Iraque, acusado de pertencer a um grupo de oposição. Mostra cicatrizes na cabeça e diz que as tem também no corpo, de espancamentos na prisão. "Paguei o equivalente a US$ 400 de propina para sair da cadeia e fugi do país." Hoje, sobrevive com uma barraca de chá e café no centro de Amã. Como a maioria dos cerca de 250 mil iraquianos que vivem na Jordânia, está ilegal. "Eles nos dão seis meses de visto e depois não renovam. E não temos para onde ir." A sorte de Badac, no entanto, pode estar prestes a mudar, e isso não tem nada a ver com a guerra: há seis meses, ele se casou com uma americana e está esperando o visto para ir para os EUA.

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