Paul Faith / AFP
Paul Faith / AFP

Irlanda do Norte encerra três anos de bloqueio político

Unionistas e republicanos chegam a acordo para restaurar as instituições regionais, pondo fim a três anos de paralisia política nesta província britânica

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2020 | 19h27

BELFAST - Unionistas e republicanos da Irlanda do Norte chegaram a um acordo nesta sexta-feira, 10, para restaurar as instituições regionais, pondo fim a três anos de paralisia política nesta província britânica na linha de frente do Brexit.

O acordo de paz da Sexta-Feira Santa, assinado em 1998, pôs fim a três décadas de um confronto violento, que deixou 3,5 mil mortos e estabeleceu que as duas partes devem compartilhar o governo regional.

Um escândalo político-financeiro rompeu a coalizão anterior do governo em janeiro de 2017 e, desde então, várias séries de negociações não tiveram êxito.

Mas agora o tempo urgia: se a situação não fosse resolvida antes de 13 de janeiro, o Executivo de Londres deveria convocar eleições regionais automaticamente, em um momento delicado para o Reino Unido que se prepara para deixar a União Europeia no fim do mês.

Diante do ultimato, os unionistas do DUP (Partido Unionista Norte-Irlandês) e os republicanos do Sinn Fein retomaram as negociações em meados de dezembro. Na quinta-feira à noite, os governos britânico e irlandês, como garantidores conjuntos do acordo de paz, publicaram um projeto de medida.

A líder do DUP, Arlene Foster, a aceitou rapidamente como "justa e equilibrada". "É claro que leva à frente a legislação sobre a língua irlandesa, mas também reconhece que alguns de nós que moramos na Irlanda do Norte são profundamente britânicos do Ulster", disse.

O Sinn Fein passou o dia inteiro analisando o texto e, no fim da tarde, a líder do grupo, Mary-Lou McDonald, acrescentou o apoio dos republicanos.

"O Sinn Fein decidiu retornar ao sistema governamental compartilhado" e "nomeou ministros em um governo que se baseia na distribuição de poder", anunciou Mary-Lou numa entrevista em Belfast. 

"Agora é responsabilidade de cada parte garantir que o executivo se encontre e que possamos trabalhar", acrescentou, especificando que ainda não há data para a primeira reunião.

O novo Parlamento regional, conhecido como Stormont, se reunirá neste sábado para a nomeação de um governo, incluindo o primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro.

Beneficiar a população

A questão das instituições norte-irlandesas tornou-se crucial porque o Stormont, até agora paralisado, terá a palavra final sobre a aplicação das controversas disposições aduaneiras destinadas a impedir o restabelecimento de uma fronteira física entre a província britânica e a vizinha República da Irlanda - país membro da UE - depois do Brexit.

O ministro britânico encarregado da Irlanda do Norte, Julian Smith, solicitou que o parlamento local se reunisse imediatamente para iniciar a restauração das instituições.

O acordo de governo prevê, em particular, medidas para promover o gaélico, o idioma irlandês, e acelerar o funcionamento da Justiça.

O governo britânico também prometeu investir em serviços públicos na região, os mais desfavorecidos economicamente no Reino Unido, com a condição de que as instituições locais sejam restauradas.

"Estabelecemos uma série do que considero compromissos muito justos para fazer avançar as questões", disse o ministro das Relações Exteriores da Irlanda, Simon Coveney.

A disputa entre o DUP e o Sinn Fein se desenvolveu nas últimas semanas em um contexto político em mudança sob a influência do Brexit, contra o qual a maioria da população da província britânica votou.

Nas legislaturas britânicas de dezembro, a Irlanda do Norte elegeu pela primeira vez para o Parlamento de Westminster mais deputados republicanos (7 do Sinn Fein e 2 do SDLP social-democrata), apoiadores de uma reunificação com a Irlanda, que os unionistas do DUP, que defendem a submissão à coroa britânica. / AFP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.