Irlanda do Norte quer exportar sua experiência de paz

Ex-inimigos, líderes de Belfast desejam levar seu know-how na resolução de conflitos a países como Síria e Colômbia

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h07

O ex-guerrilheiro do Ira Martin McGuinness e o leal súdito da coroa britânica Peter Robinson poderiam ter trocado tiros décadas atrás, em uma ruela qualquer de Belfast. Hoje, um termina as frases do outro ao explicarem, orgulhosos, como ajudaram seu país a alcançar o que na juventude deles era inimaginável - a paz.

O protestante pró-Londres Robinson é o atual primeiro-ministro norte-irlandês e seu ex-inimigo McGuinness, católico republicano, primeiro-ministro-adjunto. Os dois estão em campanha para fazer da experiência na Irlanda do Norte uma espécie de "processo de paz tipo exportação", capaz oferecer lições a guerras e guerrilhas que se espalham da Síria à Colômbia, do Sri Lanka ao Mali. A empreitada trouxe-os ao Brasil, onde se reuniram com autoridades e deram uma aula magna na Faap, em São Paulo.

"Nossa história de superação da violência mostra que outras crises ao redor do mundo podem ser resolvidas", disse ao Estado McGuinness, condenado em 1973 por um tribunal militar britânico após ser preso ao lado de automóvel com mais de 110 quilos de explosivos. "Queremos ajudar zonas de conflito, mostrando que há sempre uma alternativa política à violência."

Para ilustrar a dimensão do trauma da guerra em seu pequeno país, o primeiro-ministro Robinson - herdeiro político de Ian Paisley, o histórico líder protestante - coloca as cifras de vítimas em "proporções brasileiras". "Nos últimos anos do conflito na Irlanda do Norte, 3.500 pessoas foram assassinadas e 30 mil, feridas ou mutiladas. O Brasil é 100 vezes mais populoso que meu país. Multiplique esses números por 100 e imagine o impacto que isso teria sobre a realidade brasileira."

Este ano, o governo norte-irlandês decidiu converter a infame Prisão Maze, um dos símbolos dos anos de violência, em um museu da paz. O projeto é do arquiteto-celebridade Daniel Libeskind, que desenhou o Museu Judaico de Berlim e o novo World Trade Center.

As marcas da guerra ainda estão presentes. Ambos sofrem rotineiramente ameaças de morte. Há uma semana, o ex-integrante do Ira foi alertado pela política que havia em andamento mais um complô para matá-lo. "Eu continuo a viver minha vida. Acordo de manhã, me visto, vou trabalhar e pronto."

Modelo. Os ex-inimigos que hoje coabitam no poder enumeram quatro lições que a paz por eles negociada pode oferecer. A principal: líderes em guerra civil devem "genuinamente reconhecer" que não haverá vencedores na luta armada. "Nós entendemos que tínhamos uma oportunidade histórica para impedir que as futuras gerações herdassem aquela rotina dos velórios e o drama das famílias destruídas", afirma Robinson.

Outro aprendizado é que negociações de paz costumam ser inicialmente impopulares e o reconhecimento dos benefícios demora a vir. O premiê norte-irlandês lembra que seu partido perdeu 40% dos eleitores ao aceitar dividir o poder com o Sinn Fein, o braço político do Ira. Na eleição seguinte, porém, tiveram a maior vitória de sua história.

O terceiro ponto diz respeito à coragem de abrir negociações com grupos qualificados de "terroristas", como era o caso do Ira nos anos 70 e 80. McGuinness, o ex-guerrilheiro republicano, diz ser da "escola de pensamento que acredita ser possível apontar soluções pacíficas a grupos armados". A chave, diz o vice-premiê, é demonstrar que uma alternativa política é viável e, sobretudo, que a facção armada terá responsabilidade pela continuidade da violência. "Mas esses grupos devem realmente querer o diálogo e não apenas usá-lo como mais um instrumento na luta contra o inimigo", completa Robinson.

A quarta e última lição é que o desenvolvimento econômico ajuda a cicatrizar as feridas da guerra. McGuinness afirma que, hoje, a agenda de políticos norte-irlandeses é tomada por temas como desemprego, crise na Europa e como melhorar a vida dos cidadãos. EUA e União Europeia injetaram amplos recursos na Irlanda do Norte e a busca por investimentos é o principal motivo que trouxe os premiês ao Brasil. Além, claro, da tradicional festa irlandesa do dia de São Patrício, celebrada ontem. Em homenagem aos convidados de Belfast e à data, um jogo de luzes tingiu de verde o Cristo Redentor.

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