Irmandade acusa militares egípcios de esvaziar poder do futuro Parlamento

'Representatividade'. Junta, que propõe a criação de um comitê para supervisionar a redação da Constituição pós-Mubarak, estaria tentando se manter no controle do país sob o pretexto de evitar que grupos islâmicos tenham predomínio sobre os seculares

CAIRO, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h03

A Irmandade Muçulmana, o grupo islâmico moderado que venceu a primeira etapa das eleições legislativas no Egito, acusou ontem o Comando Supremo das Forças Armadas de tentar minar a autoridade do novo Parlamento antes de ele tomar posse. O Partido Justiça e Liberdade (PJL), braço político do grupo, prometeu boicotar um comitê proposto pelos militares para "supervisionar" a elaboração da nova Constituição.

A criação do comitê foi anunciada na quarta-feira pelo general Mukhtar Mulla, um dos membros da junta militar que governa o Egito desde a deposição do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro. Segundo o Exército, o objetivo do novo órgão é "blindar" a Carta da influência de extremistas islâmicos. Mas há indícios de que a medida é uma tentativa dos militares de manter o poder e interromper o recente processo de democratização.

Uma fonte próxima ao projeto afirmou ontem à agência Reuters que a comissão pode evoluir para um Comitê de Defesa Nacional, com poder decisório mesmo após a transferência de poder para um presidente civil, em 2012. "Se o órgão for bem sucedido em resolver essas questões nacionais, provavelmente evoluirá para um comitê dessa natureza, que continuará existindo após a posse do presidente", revelou a fonte.

Mohamed al-Katatni, dirigente do PJL que participou das discussões iniciais sobre o projeto, disse que ficou clara a intenção da junta de manter a comissão ativa após a transmissão de poder. "Esse conselho anulará a vontade popular", acrescentou o porta-voz da Irmandade Muçulmana Mahmoud Ghozlan. "Àqueles que temem os partidos islâmicos: isso se trata de uma chantagem."

O PJL teve 37% dos votos no primeiro turno, no qual foram escolhidos 100 dos 508 assentos do novo Parlamento por meio de votos em lista fechada, segundo a Alta Comissão Eleitoral. No segundo turno, a Irmandade disse ter conquistado 36 das 54 cadeiras disputadas por candidatos distritais. As eleições foram as primeiras desde a saída de Mubarak e as mais livres desde a queda da monarquia, em 1952.

A função principal do novo Parlamento é indicar os 100 constituintes que escreverão a nova Carta. O comitê monitoraria esse trabalho e seria formado por membros do atual gabinete de governo, líderes políticos, intelectuais e pré-candidatos à presidência. "O Parlamento não representa toda a sociedade", disse o general Mulla na quarta-feira. "A Constituição precisa representar todo o país e não só uma maioria parlamentar."

Segundo analistas, com a criação do comitê, o Exército pretende monitorar as novas leis que serão escritas e manter seus privilégios. Os militares estão no poder no Egito desde 1952. "O principal objetivo desse conselho é cooptar algumas forças políticas que motivaram a revolução", disse o analista Khalil Anani. "Ele tentará ressuscitar o documento Silmi (proposta abandonada em novembro que eximia os militares de se submeter ao controle civil)."

No mês passado, 40 pessoas morreram em choques entre a polícia e manifestantes que retornaram à Praça Tahrir para exigir um governo civil. / AP

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