Irmandade cria rede de voluntários para atrair eleitores

Grupo islâmico egípcio mostra-se mais eficaz e deve obter mais votos, segundo analistas

Gustavo Chacra, de O Estado de S. Paulo,

30 de novembro de 2011 | 00h48

NOVA YORK - Com uma rede de voluntários espalhados por todo o Egito, a Irmandade Muçulmana demonstrou bem mais preparo do que seus adversários salafistas e seculares na condução do processo eleitoral no maior país árabe do mundo. Favorita, a entidade islâmica deve ter ainda mais votos para o Parlamento do que o previsto inicialmente por causa da megaoperação que montou, segundo analistas.

Seus membros estiveram presentes em postos eleitorais de cidades grandes, como Cairo e Alexandria, e também de pequenas vilas no interior do país para auxiliar os eleitores em uma complicada votação, segundo observadores internacionais. Diante de uma falta de organização do governo, o partido islâmico serviu - na segunda-feira e terça, no segundo dia de votação - de instrutor para quem não entendesse como funcionava o sistema.

“A Irmandade montou uma rede de voluntários muito superior à dos rivais para treinar os eleitores. Em alguns casos, ensinava como eles deviam fazer para votar no partido. Desta forma, o Partido da Justiça e Liberdade, da Irmandade, deve ter um desempenho bem acima do esperado. Dificilmente eles ficarão decepcionados com os resultados”, disse Hani Sabra, da consultoria de risco político Eurasia.

Ed Husain, do Council on Foreign Relations (CFR), seguiu na mesma linha. “Eleitores confusos pediam ajuda a voluntários da Irmandade para entender o sistema. Eles estavam espalhados ao redor do Cairo com laptops em mesas de campanha com duas instruções. Primeiro, sobre como votar. E, em segundo lugar, como votar para a Irmandade Muçulmana”, afirmou.

Os adversários também admitiam que não souberam montar uma estratégia para os dias da eleição e viam o preparo da Irmandade como um diferencial na busca dos votos. “Nós não espalhamos nossos militantes e tampouco estivemos perto o suficiente dos eleitores. Outros partidos foram mais experientes em conseguir apoio efetivo”, disse Emad Abdel Ghafour, de um partido salafista, ainda mais radical que a Irmandade. Os partidos seculares também não souberam explorar o dia da votação como os rivais islâmicos.

Quando começaram os protestos, a Irmandade manteve distância dos acontecimentos na Praça Tahrir. Mas analistas já advertiam na época que o grupo islâmico era o único preparado para uma eleição. Desta forma, agremiações mais seculares queriam mais tempo para poder se organizar no processo eleitoral. O prazo foi considerado muito curto para formar partidos fortes após décadas de ditadura.

Membros da Irmandade dizem ter a expectativa de conseguir cerca de um terço do Parlamento. Com algumas agremiações islâmicas menores, eles podem obter uma maioria conservadora em questões religiosas no Egito. Este resultado deve assustar os egípcios mais seculares e também os cristãos coptas, que representam 10% da população e reclamam de preconceito. Husain, do CFR, avalia que há um risco de estes setores se aliarem a membros do antigo regime contra a Irmandade. Na época de Hosni Mubarak, o partido islâmico era considerado ilegal.

Além do preparo da Irmandade, a eleição no Egito tem sido marcada por um elevado comparecimento às urnas. Segundo autoridades, o número pode passar dos 70% nesta primeira etapa, na qual 17 milhões de pessoas têm o direito de votar. O resultado final está previsto para 11 de janeiro em um processo que durará mais de seis semanas.

Na noite de terça, após a votação, novos choques entre manifestantes e policiais na Praça Tahrir deixaram dezenas de feridos.

 

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