Irmandade emerge como ator decisivo do pós-Mubarak

Especialistas voltam-se à história da organização islâmica, banida desde os anos 50, para decifrar como ela moldará o novo Egito

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Do golpe contra o rei Farouk, em 1953, à ditadura de Hosni Mubarak, a Irmandade Muçulmana assistiu às mudanças no Cairo do banco de trás da política egípcia. Desta vez não será assim. O primeiro grupo fundamentalista islâmico do mundo pode ter demorado a aderir aos protestos e está longe de representar a maioria dos manifestantes que derrubou o regime, mas especialistas são unânimes ao dizer que, na construção do "pós-Mubarak", a irmandade será decisiva.

O ponto de discórdia está no papel que o grupo desempenhará no futuro do Egito. A irmandade ("Ikhwan", em árabe) defende leis islâmicas, adota um discurso antiamericano e mesmo antissemita e, portanto, irradiará instabilidade na região, argumentam alguns analistas. Outros discordam: o grupo há 30 anos participa da política de forma pacífica e demonstrou se guiar pelo pragmatismo, sem impor sua vontade e respeitando a diversidade egípcia. Em comum, os dois lados têm o uso da história para justificar suas previsões.

A irmandade foi fundada em 1928, período de crise no mundo islâmico. No lugar do Império Otomano e do sultanato de Istambul, havia sido criada a república laica da Turquia. Com o fim da Primeira Guerra, potências europeias recortaram o Oriente Médio em protetorados. Nesse contexto, o imã Hassan al-Banna funda a irmandade, com o objetivo de implementar a sharia e rejeitar a influência ocidental.

Em 1948, um membro da irmandade matou o primeiro-ministro, Mahmoud al-Nuqrashi, e o grupo foi desmantelado. No mesmo ano, Banna foi morto a tiros numa ruela do Cairo.

A verdadeira revolução no pensamento da organização veio nos anos 50 e 60 com Sayyid Qutb, teólogo e poeta tido como um dos pais do fundamentalismo islâmico. "Qutb criou a ideia de jihad como instrumento para a revolução islâmica universal, para a liberdade", explica ao Estado John Calvert, biógrafo do pensador egípcio. "Liberdade não no sentido ocidental, de direito de escolha individual, mas no sentido da realização da vontade divina", completa.

A revolução veio também na forma da mensagem. Qutb trocou a linguagem complexa dos ulemás por um discurso acessível à classe média urbana. Curiosamente, o teólogo morou no Colorado, onde se revoltou contra os valores da sociedade de consumo (embora tenha virado um confesso fã de E o vento levou).

A irmandade saudou o golpe do baixo oficialato que derrubou o rei Farouk, em 1953. Mas, pouco depois, o novo presidente, o coronel nacionalista Gamal Abdel Nasser, voltou-se contra os islâmicos, cujo discurso rivalizava com sua retórica de união pan-arabista. Em 1954, a irmandade foi banida por Nasser - status que formalmente dura até hoje.

Revoltado, Qutb decretou que Nasser era um líder ilegítimo, pois não governava segundo o Islã. O presidente e o regime representavam a "jahiliyya" - termo corânico que designa o estado de ignorância no mundo árabe antes de Maomé.

Em 1966, Nasser mandou enforcar Qutb. Vários líderes da irmandade buscaram refúgio na Jordânia e, sobretudo, na Arábia Saudita, onde entraram em contato com a escola ultrarradical do wahhabismo.

Participação. Sob os governos de Anwar Sadat e Mubarak, a irmandade se refez e recusou a ideia de "jahiliyya". "Quando Sadat permitiu que a organização participasse da vida política, em 1972, ela renunciou à violência", explica Carrie Wickham, da Universidade Emory.

A irmandade não esteve envolvida no assassinato de Sadat, em 1981, cometido pelo grupo Jihad Islâmica do Egito, do qual fazia parte Ayman al-Zawahiri, hoje número 2 da Al-Qaeda.

A partir de 1984 (três anos após Mubarak chegar ao poder), a irmandade passou a concorrer ao Parlamento. Primeiro, seus candidatos disputavam por partidos legalizados. Depois como independentes. Em 2005, a organização levou 20% do Congresso unicameral egípcio.

Com a queda de Mubarak e eleições marcadas para setembro, crescem as especulações sobre o poder de fogo do grupo islâmico, que hoje conta com cem mil filiados. Calvert estima que a irmandade leve cerca de 30% dos votos. "A irmandade é pragmática e está sentindo o novo terreno. Ela entende que muitos no Egito e fora desconfiam dela, por isso não apresentou candidato." O grupo apoia o diplomata opositor Mohammed ElBaradei.

"A irmandade não gosta de Israel, mas não há razões para supor que, se ela dominar o Parlamento, pedirá o cancelamento dos acordos de paz firmados em 1979", explica. O grupo pressionaria por mais leis islâmicas, incluindo no tratamento de mulheres e não muçulmanos, mas sob interpretações "liberais", defende Calvert.

Barry Rubin, analista israelense especializado em política egípcia, discorda frontalmente. Segundo seus cálculos, a irmandade - mais organizado e eficiente grupo de oposição - pode chegar a dominar 60% do novo Parlamento. "Eles mesmos falam que vão rever os acordos com Israel, o que levará a um rearranjo estratégico sem precedentes desde os anos 70", afirma. "Isso sem falar no apoio ao Hamas."

Baradei seria um líder fraco, por trás do qual radicais manobrariam para impor leis islâmicas e enterrar a política externa das últimas 30 décadas. "Israel sabe disso e já fez seus planos."

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