Irmandade faz megacampanha às vésperas de eleição no Egito

A Irmandade Muçulmana lançou ontem uma última ofensiva para tentar colocar seu candidato, Mohamed Morsi, entre os finalistas do primeiro turno, marcado para quarta e quinta-feira. O maior grupo de oposição do Egito até a queda da ditadura organizou comícios em praticamente todas as cidades do país, incluindo um megaevento com canhões de luz e telões de LED no centro do Cairo.

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2012 | 03h02

Pesquisas locais indicam que Morsi estaria em quarto lugar na disputa, embora analistas levantem dúvidas sobre a credibilidade dessas sondagens, uma novidade no Egito pós-ditadura. Há ainda sinais de que o candidato da Irmandade ganhou força nos últimos dias, impulsionado por uma campanha de rua intensa com base no impressionante alcance do grupo islâmico.

Mas uma sucessão de eventos tirou força da candidatura do Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade Muçulmana, que desde o início do ano domina mais da metade do Parlamento. A organização prometera após a queda de Hosni Mubarak que não apresentaria um candidato na eleição presidencial, pois não buscava a "hegemonia" no Egito. Mas, um ano depois, ela anunciou que o carismático Khairat el-Shater, um dos homens mais ricos do país, seria seu nome na disputa. A Comissão Eleitoral vetou a candidatura de Shater, alegando que ele já fora condenado na Justiça. O grupo, então, escolheu Morsi, político pouco afeito aos palanques, para substituí-lo.

Nos três meses em que esteve no poder, a Irmandade viu sua popularidade cair drasticamente. Segundo o Instituto Gallup, a aprovação do grupo em fevereiro era de 63%. Hoje, é de 42%.

No comício de ontem na Praça Midan do Cairo, dezenas de milhares de pessoas vibraram quando o candidato islâmico subiu ao palco. Fogos de artifício anunciaram sua chegada, enquanto o rosto de Morsi, filmado em tempo real, aparecia no telão montado atrás do palanque. Ao lado do político, veteranos do futebol e do cinema egípcios o aplaudiam de pé. "Lançamos Morsi como nosso candidato, pois temos de salvar a revolução", disse ao Estado Mohamed Saad, integrante da direção da Irmandade. "Somos maioria no Parlamento, mas os militares não nos deixam formar um governo."

Saad ecoa o novo discurso da organização, bem mais moderado, que tenta afastar os temores de egípcios seculares e do Ocidente. "Vamos respeitar os acordos de paz com Israel e fazer do Egito um país para todos os egípcios, cristãos e muçulmanos, liberais e religiosos", promete.

Hamas Sabra, de 19 anos e rosto inteiro coberto pelo véu, vibrava a poucos metros do palco. Ela conta que "nasceu na Irmandade", pois seu pai é da organização. "Vamos lutar pelos direitos das mulheres, para estarmos representadas na política", afirmou. Questionada se ela acredita que imagens de moças de biquíni na TV deveriam ser proibidas no Egito, ela hesitou. "Não sei. Mas tudo deve começar com educação, não com proibição."

À frente de Morsi na disputa estariam três candidatos: o ex-chanceler Amr Moussa, o islâmico liberal Abdel Moneim Abou Fotouh (que rompeu com a Irmandade para se candidatar) e o último premiê da era Mubarak, Ahmed Shafiq. Ontem foi o último dia de campanha no Egito, segundo o calendário eleitoral.

Centenas de ativistas egípcios, incluindo 1 dos 13 candidatos à presidência, iniciaram ontem uma greve de fome de 24 horas contra a prisão de cerca de 300 pessoas em um protesto há cerca de um mês no Cairo.

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